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Sexo seguro, só com compromisso

Pesquisas confirmam o que o velho (mas sempre atual) conselho bíblico já dizia: sexo tem hora e modo de usar.

De acordo com a cultura popular, homens precisam começar a fazer sexo o quanto antes, porque precocidade e diversidade de experiências são preparatórias para o bom desempenho na vida adulta. Já as mulheres são mais românticas e reflexivas em relação ao sexo, e costumam “entregar” a virgindade como um dote para com quem desejam passar o resto da vida.

Toda essa história de sexo com compromisso e virgindade até o casamento parece soar hoje mais como romantismo de conto de fadas, encíclica papal ou sermão retrógrado. Só parece. Psicólogos e médicos têm pesquisado sobre os efeitos da revolução sexual das últimas décadas sobre o maior órgão sexual do ser humano, e para o qual não existe preservativo: o cérebro.

Os resultados, alguns conclusivos e outros ainda não, são preocupantes e convincentes. Além de dar formas mais arredondadas ao corpo, o sexo muda nossa mente. “Ele produz poderosas (até para a vida toda) mudanças no cérebro que dirigem e influenciam nosso futuro num grau surpreendente”, garantem o ginecologista Joe S. McIlhaney e a obstetra Freda McKissic Bush, no livro Hooked – New Science on How Casual Sex is Affecting Our Children.

 

PERDA DA “COLA”

Segundo os especialistas norte-americanos, nossa “central de comando” trabalha sob o efeito de neurotransmissores como dopamina, oxitocina e vasopressina. As três substâncias são neutras, podendo recompensar bons e maus hábitos, dependendo do comportamento do indivíduo. O efeito “cola” da oxitocina e da vasopressina, apelidadas de “hormônio do amor ou da fidelidade”, é um exemplo desses processos.

Quando duas pessoas fazem sexo, ambas liberam esses hormônios relacionados ao prazer do vínculo afetivo; logo, na cama não há apenas união de corpos. Se o encontro foi só casual, fica a ferida aberta da “cola” que foi retirada. No caso dos homens, especialmente, a experiência com várias parceiras diminui a produção de vasopressina (perda da “cola”), por isso, esses indivíduos tendem a fugir de compromissos e a se esconder em relações superficiais. O curioso é que a produção desses hormônios aumenta nas relações sólidas e diminui com a promiscuidade.

Essas reações químicas e cognitivas ajudam a explicar também o fenômeno da descartabilidade nos relacionamentos, bem exemplificados pela popularização do “ficar” entre os adolescentes, e do sexo casual entre os jovens adultos. Quem faz o alerta é a psicóloga Talita Castelão, mestre em Sexologia e doutora em Genética.

“Alguém que não está disponível para dividir com você o todo da vida, dificilmente terá responsabilidade para com seus sentimentos ao dividir apenas partes do seu corpo”, argumenta. Talita, que atende casais que buscam terapia sexual em seu consultório, critica a lógica do momento: “Vejo muitos homens fingindo amor para terem sexo e muitas mulheres permitindo o sexo para terem amor. Resultado: ninguém tem o que quer de verdade.”

 

IDADE É DOCUMENTO

A precocidade das relações sexuais é outro comportamento que preocupa esses profissionais. Com a puberdade chegando mais cedo e o casamento mais tarde, há maior tolerância social para o sexo “seguro” entre adolescentes. O ponto é que os preservativos e anticoncepcionais não protegem, por exemplo, o lobo frontal. Essa região do cérebro, responsável por analisar as decisões com consequências de longa duração, não está completamente formada até os 25 anos.

“Por isso, os adolescentes são vulneráveis aos comportamentos de risco”, esclarece a psicóloga Rosana Alves, doutora em Neurociências. Rosana se refere ao sexo precoce, bem como às drogas e qualquer comportamento que misture prazer com perigo.

Para a pesquisadora, nem a mente nem o corpo dos adolescentes estão preparados para uma vida sexual ativa. “Do ponto de vista biológico, o epitélio do colo do útero das adolescentes está exposto e, tanto as clamídias como os gonococos têm preferência por esse tipo de tecido. Logo, as adolescentes são muito mais vulneráveis às DSTs do que as mulheres acima de 25 anos”, exemplifica.

A professora Talita reforça o coro de que sexo pede maturidade. “Com 14 anos, por exemplo, não há estrutura em todos os sentidos. A pessoa está conhecendo a si mesma e precisa decidir quais crenças vão reger sua vida. O sexo pode confundir muito esse processo, dando uma falsa sensação de vínculo”, opina.

 

SEXO VICIA

Outro risco do sexo sem compromisso é o vício. A explicação para isso seria a torrente de prazer gerada pela dopamina no cérebro. O hormônio da recompensa funciona como uma droga que vicia, porque pede que as experiências sejam repetidas de maneira mais intensa.

Mas antes de culpar a dopamina por qualquer dependência, saiba que ela é neutra, reforça apenas os comportamentos que escolhemos. Ou seja, quem pratica o sexo no casamento – uma relação estável – tem a ajuda da dopamina para ficar “viciado” no marido ou esposa, e “ser feliz para sempre”. Já quem tem várias parceiras ou parceiros enfrentará maior dificuldade, caso queira mudar seu estilo de vida.

“A troca frequente de parceiros exige que nosso cérebro produza quantidades cada vez maiores de dopamina para que continuemos sentindo prazer, o que pode ser prejudicial. Da mesma forma que a droga vicia, esse comportamento também (claro que em um nível bem menor), levando muitos a se tornarem promíscuos”, alerta a psicóloga Rosana.

 

CASAR FAZ BEM

O que algumas pesquisas apontam é que os parceiros monogâmicos casados apresentam os maiores índices de satisfação sexual e emocional. No livro de McDowell, por exemplo, é citado um estudo da Univeridade de Chicago (EUA) sobre práticas sexuais dos norte-americanos. Publicado em forma de livro em 1994, o levantamento mostra que 87% dos casais entrevistados disseram estar muito satisfeitos com sua vida sexual; e 85% afirmaram estar muito bem emocionalmente. McDowell atribui essa felicidade à oxitocina, o hormônio do amor e da fidelidade.

O psiquiatra e membro da American Psychosomatic Society, César Vasconcellos de Souza, acrescenta uma pesquisa à discussão. Ele cita o estudo do Dr. Dean Ornish, cardiologista e professor da Universidade da Califórnia, publicado no livro Amor e Sobrevivência (Rocco, 1999).

Segundo o médico, a intimidade afetiva de uma relação é muito importante para a saúde do coração, e o casamento monogâmico é o tipo de relacionamento que oferece melhores condições para isso. “As pessoas que têm muitos parceiros, um tipo ‘Dom Juan’, no fundo não têm ninguém, porque não desenvolvem intimidade afetiva com nenhuma pessoa, mesmo fazendo sexo com várias”, complementa o psiquiatra brasileiro.

 

SUPRESSÃO X REPRESSÃO

Mas, se vários estudos apontam para as vantagens da ética sexual defendida por quase todas as igrejas cristãs – que recomenda o sexo somente no contexto do casamento heterossexual –, por que assumir esse comportamento soa engraçado para alguns e absurdo para outros?

Provavelmente, porque tudo que relaciona Bíblia com sexualidade é confundido com a repressão sexual que imperou por séculos, motivada, em boa parte, por uma visão religiosa equivocada (veja abaixo o box “Ação e reação”). Como toda ação gera uma reação proporcional, o pêndulo da ética sexual deixou o extremo da repressão, passou pelo ponto de equilíbrio e agora tende para a outra ponta, a banalização.

O psiquiatra César Vasconcelos diz que as respostas que a humanidade busca não estão em nenhum dos dois extremos, mas no centro. “Supressão é diferente de repressão”, sugere um meio-termo. “Suprimir é ter consciência de seus impulsos, mas administrá-los para uma boa convivência, respeitando seus valores. Enquanto reprimir é não ter consciência dos seus desejos, por não ter dado uma chance à sua mente de perceber o que ela quer”, define.

Apesar de a sociedade atual considerar a virgindade coisa de outro mundo, o psiquiatra acredita que a abstinência sexual até o casamento é possível e saudável quando o “jovem sabe o que quer, tem coragem moral de praticá-la, não se deixa levar pela maioria e concentra sua energia mental no preparo para a vida adulta”. O médico ainda acrescenta que, para esses jovens, o risco de desenvolver distúrbios emocionais é muito menor do que nas pessoas supersexualizadas.

[Adaptação de Revista Conexão 2.0 – 2º trimestre/2013. Autoria: Wendel Lima Colaboração Michelson Borges]
Wendel Lima
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