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Sem fronteiras

Imagine um mapa-múndi. Para qual lugar representado no mapa você apontaria se ouvisse a palavra “missionário”? É bem provável que você tenha associado a ideia de missão a algum lugar da África ou do Oriente. Normalmente entendemos que os missionários vão para essas regiões do planeta. Mas, que acha de conhecer alguns deles neste lado do mundo? Nos países da América do Sul há também espaço para a atuação daqueles que rompem as barreiras da geografia, da cultura e dos níveis socioeconômicos para atender as necessidades das pessoas e apresentar-lhes Jesus Cristo. Nesta matéria, você conhecerá visionários que têm a educação como missão, e que ultrapassaram fronteiras a fim de compartilhar os ideais de uma vida melhor.

 

 

ESCOLA FLUTUANTE

Judith Palomino é professora há mais de 20 anos. Ela mora em Puno, antiga cidade ao sul do Peru, às margens do lago Titicaca, o maior da América Latina, na fronteira com a Bolívia. É nesse lugar exótico que a missão da professora é realizada. Todos os dias ela acorda às 5 horas da manhã, sai de casa, no centro da cidade, e se desloca durante 40 minutos até o cais, onde embarca numa lancha. Após 15 minutos navegando no lago Titicaca, Judith avista pequenas comunidades indígenas em ilhas flutuantes.

As ilhas flutuantes são conhecidas como Los Uros. Talvez você pense que uma ilha flutuante indígena seja uma estrutura de troncos de madeira amarrados com cordas de sisal, mas a arquitetura de Los Uros é incrivelmente mais interessante. No lago Titicaca é muito comum uma planta chamada totora, semelhante ao junco (vegetal de que geralmente são feitos os cestos). A totora trançada flutua e pode suportar bastante peso. Os indígenas da região constroem “ilhas” prendendo vários feixes de totora. Sobre as ilhas flutuantes eles constroem cabanas de madeira e palha. A cada duas semanas, a totora que forma a ilha precisa ser renovada para que a estrutura não afunde.

Escola Adventista de Los Uros

A bordo com a professora Judith, vemos as ondas formadas pelo motor do barco balançarem as ilhotas. Ela nos aponta o destino: a Escola Adventista “Uros”, situada sobre uma ilha flutuante de pouco mais de 90 metros quadrados. Nessa área, há, feitas de madeira, as salas de aula e uma capela, que funciona como igreja aos sábados. O barco atraca na ilha. Quando pisamos sobre o chão de totora, sentimos que, mesmo flutuando, ali está uma missão firmada sobre alicerces inabaláveis.

Os indígenas do lago Titicaca raramente falam o espanhol, a língua oficial do Peru. O quéchua e o aimará são os idiomas dos nativos. Essa é uma das barreiras que a escola adventista local enfrenta para apresentar novos conhecimentos aos alunos. “Tenho que ensinar o espanhol para as crianças, mas preciso que primeiro entendam o que falo. Então, converso com elas em quéchua e aimará, mas escrevo somente em espanhol. Assim elas se acostumam com o espanhol”, explica Judith.

A dificuldade com um novo idioma é enfrentada apenas pelos que vão à escola. William Derly Huanca Quispe é o diretor de educação adventista para a região do lago Titicaca, e aponta os entraves culturais que a instituição enfrenta: “Essa é uma escola gratuita, mas, mesmo assim, os pais não trazem os filhos, pois não acham que escola seja necessária. Por isso, nossas duas professoras saem de barco de ilha em ilha, buscando as crianças para as aulas. Se não fosse assim, muitos não viriam”. Essa cena acontece duas vezes por dia: na chegada dos alunos, por volta das 8h30, e às 15h, quando retornam para casa, de carona no barco da escola.

Na escola há apenas duas salas de aula. Numa, estudam as crianças entre 6 e 9 anos, e, na outra, as maiores, entre 10 e 14 anos. No quadro de giz, os conteúdos são separados pelo “ano” a que o aluno pertence. Como as matérias de anos escolares diferentes são ensinadas no mesmo ambiente, o estudante progride de acordo com o que aprendeu, independentemente de sua idade. “Além das aulas teóricas, ensinamos artesanato indígena. As crianças aprendem a fazer peças para usar em casa e para vender aos turistas” – conta a professora Judith.

No recreio, uma cena nostálgica: crianças com roupas típicas coloridas, descalças, pulam corda, rodam pião e brincam de pique-esconde. Crianças sendo crianças, mesmo com tão pouco… “Nós oferecemos uma merenda simples, que, na maioria das vezes, é o almoço delas. Elas gostam quando se encontram com turistas. Pessoas do mundo todo vêm aqui, e elas pedem a cada visitante que ensine uma música em seu idioma”, “Uros” destaca, orgulhosa, a professora. O coral da escola apresenta canções em nove idiomas diferentes, como japonês e francês.

Imersa em uma cultura de simpatias e feitiçarias indígenas, a instituição cristã de ensino exerce seu papel missionário. A Escola Adventista “Uros”, com apenas 30 alunos, é a maior escola do lago. E, para a professora Judith, quem mais aprende é ela mesma: “Por muito tempo fui professora no conforto da cidade. Há pouco mais de dois anos entendo a missão do magistério. Hoje, para mim, ser professora é trazer um pouco da comida da minha casa para meus alunos, é conseguir doações de materiais escolares e livros para que essas crianças possam ter o direito de aprender.”

 

NAS ILHAS DE DARWIN

Escola adventista será transferida para a avenida Charles Darwin

Mais de cem ilhas formam o arquipélago de Galápagos, no oceano Pacífico, a cerca de mil quilômetros da costa do Equador. Elas são conhecidas como o “berço do darwinismo”. Após uma temporada no local, Charles Darwin (1809-1882) elaborou sua teoria da origem das espécies, que defende a evolução como princípio universal. A ilha mais povoada do arquipélago é Santa Cruz. Nela está a Estação de Pesquisas Charles Darwin, um santuário em forma de museu. O estabelecimento contém um acervo de materiais estudados pelo cientista que lhe dá nome, e é um dos pontos mais visitados pelos turistas.

Em uma cultura relacionada ao pensamento evolucionista, uma curiosidade chama a atenção: a maior escola do arquipélago é a Escola Loma Linda, uma instituição adventista de ensino. “Atualmente, atendemos mais de cem alunos e somos bem conhecidos aqui. A estrutura atual já não comporta os estudantes. Então estamos construindo um novo colégio na avenida principal, que, inclusive, se chama Charles Darwin”, conta o diretor, Marck Jitar. Ao lado da nova escola, foi estabelecida a pedra fundamental de um centro criacionista de pesquisas, que futuramente deverá receber cientistas criacionistas de todo o mundo.

No entanto, o começo dessa história de êxito dependeu do senso de missão e pioneirismo. “Sou de Quito, capital do Equador. Sempre tive vontade de ser missionária, e, há 16 anos, quando começou o sonho de construir essa escola, decidi que seria uma pioneira aqui. Naquela época eu estava noiva e, dentro de um ano, iria me casar. Foi uma decisão difícil, porque eu vim, mas meu noivo ficou na capital. Quando nos casamos, fiquei surpresa com a decisão que ele tomou: voltar para a ilha comigo, e continuarmos essa missão juntos”, lembra a professora Cecília Rugel, que ainda leciona na escola, onde seu marido também é colaborador.

 

PESCANDO SONHOS

No Brasil, há outra escola que, embora não enfrentando uma barreira cultural nem contrastando com a ideologia relacionada ao lugar, eleva-se acima das dificuldades sociais. Para chegar até Guaraqueçaba, tomamos um carro em Curitiba e dirigimos duas horas até Paranaguá, onde pegamos um barco e seguimos mais uma hora de viagem em águas geladas, escuras, acompanhados por golfinhos que seguiam o barco ao longo do trajeto. Lá chegando, há uma cidade cujo visual revela a principal fonte da economia local: a pesca.

Ali, uma escola, que não é do governo, com pouco mais de cem alunos, não cobra taxa de matrícula nem mensalidades dos estudantes. Essa escola também oferece gratuitamente o uniforme, a merenda e todos os livros novos sem custo para os alunos. “Essa é uma missão. É um local humilde, mas as pessoas daqui merecem ter acesso à educação. Por isso, as escolas adventistas da região sul do Paraná doam dinheiro e materiais para sustentar a unidade de Guaraqueçaba. A editora dos nossos livros, a Casa Publicadora Brasileira, doa todo o material didático para os alunos daqui”, revela Anderson Voos, diretor da educação adventista para a região sul do Paraná.

Escola Adventista de Guaraqueçaba

Tudo começou há 18 anos, com a chegada de uma família adventista. “Sou médico, e passei em um concurso público para o único posto de saúde da localidade. Sempre estudei em escolas adventistas, e queria que minhas filhas, na época pequenas, tivessem a mesma oportunidade. Mas esse sonho parecia impossível. Nossa família e mais três se reuniram e começaram a escola de forma independente. Pouco tempo depois, a igreja assumiu a missão e mantém a escola”, conta Jonatan Löschner, que até hoje é o único médico do local.

 

SUBINDO O MONTE

No início do texto, você deveria pensar em um lugar que remetesse à palavra “missionário”. Muito mais que a um lugar, o termo se refere a uma circunstância: os desafios. A história bíblica de Calebe (Js 14:8-15) ilustra bem o espírito missionário. Mesmo depois de viver durante 40 anos no deserto, ele não desanimou da meta de “conquistar o monte”, a terra prometida por Deus. Essa história me veio à mente ao subir a serra gaúcha para conhecer uma escola no município de Rolante.

Não pense na exuberância de Gramado ou Canela, que atraem milhares de turistas. Rolante fica próximo, mas é bem diferente. Percebi isso quando a placa na estrada indicou “zona rural”. Fazia frio, e uma chuva fina deixou o tempo nublado e cinzento. Encontramos alunos bem agasalhados em uma escola antiga, com piso de madeira e salas repletas de livros. “Foram doados. Nossos alunos gostam muito de ler”, explica uma professora. Conhecendo o histórico dos alunos que passaram por ali, comecei a entender o motivo de aquela instituição ser assim tão especial. Não se sabe exatamente quando a escola começou a funcionar, mas foi em fevereiro de 1973 que sua história mudou. “O pastor Ivo Souza veio com a esposa e os filhos visitar parentes que moravam aqui. Ele havia sido aluno da escola. Pequena, com apenas uma sala, o governo exigia que a escola fosse ampliada. Caso contrário, deveria ser fechada. A última coisa que o pastor Ivo falou antes de partir foi que precisávamos lutar para continuar com a escola”, conta a professora Ruth Sousa Mendes.

O inesperado foi que, naquele mesmo dia, uma tragédia marcou a história do local: retornando para o Rio de Janeiro, o pastor Ivo, a esposa e um filho morreram de acidente de carro. “Todos choraram. Mas, quando os familiares receberam a indenização pelo acidente, não tiveram dúvida sobre o que fazer com o dinheiro: doaram para a ampliação da escola, que funciona até hoje”, lembra Ruth. Mantendo o senso missionário e incentivando nos alunos o amor a Deus acima de tudo, pela pequena Escola Adventista Pastor Ivo Souza, como foi nomeada, já estudaram mais de 80 pastores e líderes da Igreja Adventista.

A família Kuhn se mudou há mais de 40 anos para o local a fim de os filhos crescerem em meio a natureza e estudarem na escola. O casal não se arrepende de haver trocado a cidade de Belo Horizonte pela zona rural no sul do Brasil. O patriarca Elmo Kuhn se emociona ao falar da experiência dos filhos com a escola: “Tínhamos familiares aqui, que falavam como essa escola era especial. Era o que queríamos para nossos filhos. Hoje, quatro de nossos seis filhos são pastores, e louvamos a Deus pela missão dessa escola, pois ela forma a mente, o caráter e a personalidade dos seus alunos. Ela estabelece o preparo para a vida eterna!”

 

Na telinha
Visualize as cenas dessa viagem missionária na série de documentários “Educação e Missão”, produzida pela TV Novo Tempo. 

 

 

Fonte: Revista Conexão 2.0 – 2º trimestre/2017. Texto: Rebbeca Ricarte
Imagens: Fotolia e Rebbeca Ricarte
Rebbeca Ricarte
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