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O dilema da vocação

“O que você quer ser quando crescer? ” Embora os parentes e vizinhos insistam nessa pergunta ano após ano, a maioria dos adolescentes se sente insegura na hora H de bater o martelo e eleger a futura profissão. Como se não bastasse o turbilhão de tarefas da reta final do Ensino Médio, o cursinho, as provas do Enem e o vestibular, o cérebro ainda fervilha de dúvidas existenciais. Qual carreira seguir? Psicologia, Química ou Engenharia? Será que fiz a escolha certa? E se…?

Boa parte desse dilema se deve à (falsa) ideia de que a escolha da carreira é para a vida toda. Podia até ser no tempo dos nossos pais, em que o sucesso profissional era medido pelo trabalho de décadas numa mesma empresa, mas hoje em dia… Com as transformações do mundo em ritmo cada vez mais veloz, alguns ofícios tradicionais tendem a desaparecer, enquanto novas funções vão surgindo. “A universidade hoje forma pessoas para trabalhar em profissões que ainda vão ser criadas, resolver problemas que ainda não existem, para viver em um mundo que será diferente daqui a cinco anos”, pondera o pró-reitor de graduação da PUC-PR, Vidal Martins.

Alto lá! Isso não significa que você deve relaxar e adotar o melô “deixa a vida me levar”, entrando e saindo de cursos e empregos como quem troca de roupa. Afinal, estamos falando de decisões que envolvem grande investimento emocional e financeiro e, muitas vezes, mudanças radicais. Justamente por causa do futuro imprevisível, você precisa estar atento desde já à descoberta de sua vocação profissional. Não de forma engessada ou unidirecional, mas no sentido de identificar talentos e definir valores e objetivos que norteiem a realização profissional.


O CHAMADO

Originalmente, a expressão “vocação” vem do latim vocare, do verbo “chamar”, com certo conceito religioso. Mas é preciso atualizar esse significado: o tal chamado não virá por meio de uma voz do fundo do poço no momento da inscrição para o vestibular, e sim pela busca do autoconhecimento. “Isso envolve desde cedo a identificação de dons pessoais, habilidades e competências. O jovem precisa saber o que mais gosta de fazer ou ter consciência de que tipo de trabalho o satisfaz”, diz a orientadora educacional Kenia Amazonita, coordenadora pedagógica do Colégio Adventista de Lauro de Freitas, na Bahia.

Quando se fala de talento, pode vir à mente a imagem de um ator ou atleta que nasceu predestinado ao sucesso. No entanto, o conceito se aproxima muito da vocação, embora não necessariamente determine a carreira. “Talento é tudo aquilo que a pessoa faz com desenvoltura e realização, motivado pela paixão, sem ver o tempo passar”, define a master coach Raquel Bimashar, especialista em coaching para jovens e empresários.

Aí do seu canto, você, leitor, pode achar que não nasceu com talento para nada. Deixa disso. Você até pode não ser um Albert Einstein da física ou um Picasso das artes plásticas. Mas tem o pulo do gato: muitos talentos podem ser adquiridos com alguns estímulos primordiais. A primeira mola mestra desse processo é exercitar a visão: enxergar mais adiante daquilo que todos estão vendo. “Outro impulso essencial é a empatia, isto é, saber se colocar em diferentes condições e cenários do ambiente ao seu redor, vislumbrando formas de ajudar e co-criar com o meio”, aponta Thiago Maceri, mestre em Administração. Vale ainda investir na diversidade de contatos e opiniões, já que o conflito entre diferentes pessoas aumenta as chances de pensar fora da caixinha.

Como na parábola contada por Jesus em Mateus 25:14-30, os dons devem ser desenvolvidos para que gerem frutos. “A ideia é se autoconhecer para, então, se autodesenvolver”, diz Raquel Bimashar. Aprendizado e aperfeiçoamento exigem persistência, mas levam à formação de habilidades técnicas, ou seja, o modo tido como o mais adequado de realizar determinada tarefa. É aí que se forma o profissional. Quem consegue ter a junção entre talento nato e método passa a ser identificado como alguém competente, com know-how suficiente para ocupar funções e conectá-las com a própria missão.

E os pontos fracos, o que fazer com eles? “Hoje, dentro da psicologia positiva, trabalhamos com a perspectiva de empoderar o jovem com aquilo que ele tem de maior e de melhor. E no processo de autoconhecimento, naturalmente ele tomará consciência daquilo que ele precisa melhorar”, contrapõe a filósofa e master coach Maria Antônia de Oliveira, especialista em psicopedagogia e orientação escolar. Noutras palavras, fortaleça suas habilidades e neutralize suas fraquezas pouco a pouco.

 

TRABALHO ÁRDUO

reset neste outro mito muito comum: não existe apenas uma única carreira certa para você. Em um primeiro momento, o reconhecimento vocacional deve mirar não exatamente na atividade-fim, mas em áreas de trabalho compatíveis. Por exemplo, a vocação para ciência e tecnologia vai desde engenharia a informática, até a pesquisa científica e acadêmica. Já profissões que requerem comunicação e uso do corpo podem ir desde artes plásticas, relações públicas à educação física.

Por outro lado, a escolha do curso superior exige certo afunilamento, embora a atuação profissional futura possa ser bem ampla e diversificada. “Para a escolha ser a mais assertiva possível, o aluno deve, previamente, procurar conhecer o mercado de trabalho, pesquisar sobre as tendências profissionais, ter informações necessárias sobre as faculdades de sua região, conversar com profissionais das áreas pretendidas, conhecer a própria realidade socioeconômica e, acima de tudo, planejar de que maneira irá acontecer o preparo profissional”, recomenda Kenia Amazonita, que também é especialista em orientação educacional e vocacional e tem mestrado em Educação pela Unimep.

Digamos que identificar a vocação é a parte boa e romântica do processo. Mas muita gente se esquece do trabalho árduo, de enfrentar a caminhada para realizá-la. A trajetória inclui planejamento, renúncia e investimento financeiro – ainda que a faculdade seja pública, você ou sua família vão ter que arcar com gastos de livros, material extraclasse, transporte e talvez moradia. E ainda estar antenado com o mercado de trabalho, em constante transformação.

“Mas, veja bem: ‘ser antenado’ não significa estar nas redes sociais”, Kenia puxa a orelha dos hipercibernéticos. Ela lembra que os atributos essenciais nunca saem de moda, mesmo na sociedade da cibercultura. “Seja um leitor incansável, busque crescer culturalmente, aprenda inglês, diversifique seus conhecimentos, desenvolva habilidades relacionais, seja criativo, desprendido e determinado e, acima de tudo, peça a Deus sabedoria para fazer boas escolhas”, orienta.

 

[Revista Conexão 2.0 – 1º trimestre/2016. Autoria: Fernando Torres]
Imagem: Freshidea/Fotolia
Fernando Torres
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