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Junte as peças

Contar a história que antecedeu a História, sempre foi uma tarefa mais fácil para cineastas e ilustradores, do que para cientistas, historiadores e teólogos. A falta de informações sobre esse período, força qualquer pesquisador ou curioso do assunto a recorrer, em algum momento, à especulação.

Na ficção, o tema já rendeu bons sucessos na indústria cultural, como o filme a Era do Gelo; o desenho Os Flintstones, lançado na infância dos nossos pais e que ganhou versão para o cinema em 1994; e a série de TV Família Dinossauro, exibida nos anos 90 em três emissoras brasileiras.

 

FALTAM MUITAS PEÇAS

Mas quando se trata de investigar as evidências que ajudariam a reconstituir essa época ainda obscura da trajetória humana, sobram perguntas sem respostas. Do lado evolucionista, há um consenso dogmático, mais baseado em um paradigma filosófico construído nos dois últimos séculos do que em peças que se encaixam no grande quebra-cabeça fóssil.

Para esse grupo, o homem tem origem comum com os símios e evoluiu ao longo de centenas de milhares de anos – tempo em que aprendeu a andar sobre dois pés, a se abrigar em cavernas, manipular acidentalmente o fogo, registrar seus hábitos e crenças nas paredes das grutas, e finalmente desenvolver ferramentas de pedra, bronze e ferro.

Do lado dos criacionistas, as pistas também não são muitas, pelo menos no campo da ciência. Mas, por considerarem a Bíblia um documento confiável e histórico – e não um mito, como os céticos – os cristãos levam vantagem na busca por resgatar esse tempo perdido. Como afirma o professor de Pré-História da Universidade Estadual da Paraíba, Matusalém Alves Oliveira, “o historiador não pode desprezar nenhuma fonte”. Ainda que ela seja religiosa e contrária às suas hipóteses.

É do fundo dessa caverna quase inexplorada que esta matéria pretende achar alguns vestígios dos primeiros passos do homem na História, ou melhor, na Pré-História. Quem nos ajudará nessa viagem no tempo são cientistas e teólogos criacionistas. Optamos pela interpretação deles como uma alternativa à teoria evolucionista, já bem divulgada e que até aqui moldou nossa imaginação.

 

NO INÍCIO, AS DEFINIÇÕES

O conceito de pré-história foi elaborado no século 19, em um contexto de imperialismo europeu, que buscava justificativas para a dominação de povos mais “atrasados”. Nascia ali a definição de história associada ao início da escrita. Logo, tudo o que antecede o registro dos documentos mais antigos – em cuneiforme mesopotâmico e hieroglífico egípcio, datados de 3.200 a.C.) – é classificado como pré-história.

A escrita, sem dúvida, é uma fonte de informação mais rica do que um artefato sem sinais gráficos, mas, na ausência de documentos, o caminho é recorrer à cultura material (cerâmicas, pinturas e artefatos), campo da Arqueologia, e aos fósseis humanos, passatempo dos paleoantropólogos.

Para facilitar o estudo desse período que, segundo os evolucionistas, começou há mais de 1 milhão de anos, Christian J. Thomsen, em 1816, criou os termos Idade da Pedra (1 milhão a 3.200 a.C.), do Bronze (3.200 a 1.200 a.C.) e do Ferro (1.200 a.C. até hoje). Seu insight aconteceu quando organizava os artefatos do Museu Nacional da Dinamarca e percebeu que esses três materiais predominavam nas ferramentas das civilizações mais antigas.

 

O PROBLEMA DAS DATAS

Para os evolucionistas, o desenvolvimento tecnológico desses artefatos representaria a evolução cognitiva do homem. Teríamos avançado da pedra para o ferro, do simples para o complexo. Já os criacionistas entendem que essas ferramentas representam apenas o desenvolvimento cultural do homem, e não o biológico. Isso explicaria por que, há poucas décadas, foram ainda encontradas comunidades isoladas que apresentaram hábitos e organização social dignos da Idade da Pedra. Para os criacionistas, o período da pedra, do bronze e do ferro não foram necessariamente sucessivos e longos, mas contemporâneos.

Os que questionam a cronologia evolucionista se mostram mais cautelosos quanto aos métodos de datação. “Para datar a idade relativa de um vestígio de osso orgânico, não fossilizado, é usado o Carbono 14, mineral radioativo que tem uma vida média de desintegração que chega a 5.750 anos. Portanto, uma idade maior do que essa está sujeita a toda dúvida”, pondera Rúben Aguilar, doutor em Arqueologia pela USP.

 

FÓSSEIS

Se a Arqueologia tem suas limitações para reconstituir a Pré-História, com o estudo dos fósseis humanos não é diferente. Entre os paleoantropólogos a evolução é unanimidade, mas as divergências são quanto às linhagens macaco-humanas. Quem afirma isso no artigo “A busca dos ancestrais de Adão”, na revista Diálogo Universitário,1 é a Dra. Elaine Kennedy, Ph.D em Geologia pela Universidade do Sul da Califórnia (EUA).

 

 


O ELO CONTINUA PERDIDO

Os desenhos sobre a suposta linhagem evolutiva do homem são mais obra de arte do que ciência. Elos importantes ainda não foram achados. Durante essas décadas de busca, a mídia elegeu alguns fósseis como celebridades da Pré-História. Veja alguns deles.

 


 

A Dra. Kennedy aponta lacunas da teoria evolucionista em três áreas: paleoantropologia, filogenética e antropologia molecular. Na paleoantropologia, há dificuldades quanto à classificação dos fósseis em uma linhagem ascendente que chegue até o homem moderno. O homo habilis, por exemplo, foi identificado como homo em função apenas dos artefatos que foram encontrados próximos a ele, e não por andar ereto, como é o padrão de classificação desse grupo.

A dificuldade de organização dos cladogramas, diagramas em forma de árvore ramificada que procuraram mostrar as relações de parentescos dos seres vivos, também é enfrentada pelos filogeneticistas. Segundo a Dra. Kennedy, há pelo menos sete cladogramas, e os evolucionistas costumam optar por aquele que mais favorece a evolução.

No campo da antropologia molecular, que estuda as semelhanças de proteínas e DNA dos hominídeos, a tese questionada é de que o tempo teria cuidado da diferenciação entre os símios e o homem (cerca de 5 a 7 milhões de anos). Os evolucionistas não sabem dizer quando as espécies afins teriam se separado geneticamente. O start de um possível “relógio molecular”, que funcionaria num ritmo constante de mudança do DNA, é a suposição deles.

A Dra. Kennedy conclui que boa parte dos métodos utilizados e das interpretações feitas são condicionados pelo ponto de partida evolucionista e que esse mosaico de características dos fósseis torna difícil a classificação deles pelo conhecimento disponível hoje.

 

OUTRO OLHAR

Os criacionistas olham de maneira distinta esses mesmos fósseis. Entendem que parte deles se trata de símios extintos e, os demais, de seres humanos com deformidades e de raças que conviveram e tiveram sua diferenciação determinada pelo isolamento geográfico, adaptação ao clima e cruzamento genético.

“Os erectinos parecem ter sido humanos. Talvez sofreram os graves efeitos da reprodução no seio da família e de um estilo de vida prejudicial. Os australopitecos podem ter sido um tipo extinto de macaco. Eles não parecem ter relação com as espécies atuais”, explica o paleontólogo Dr. Raul Esperante, pesquisador do Geosciente Research Institute (GRI), instituição da Igreja Adventista, com sede na Califórnia (EUA).

Quanto aos australopitecos, mais conhecidos como a Criança de Taung e Lucy, segundo o Dr. Esperante, foram símios extintos. “Eles eram muito semelhantes aos seres humanos, mas tinham um cérebro do tamanho do cérebro de um chimpanzé e algumas características que sugerem que viveram em árvores”, completa o Dr. Esperante.

Já em relação aos neandertais, ele afirma: “Provavelmente, eles viveram em cavernas. A forma de seu crânio é diferente da atual, e a capacidade cerebral é maior que a do homem moderno. Eles formaram uma cultura, eram altamente inteligentes e possuíam alguns traços típicos decorrentes, talvez, das adaptações ao clima e à mastigação de alimentos difíceis. Ao que parece, foram mais fortes do que nós.”

 

O QUE É UM HOMEM?

Essa interpretação criacionista tem como base a definição do que é o homem e a dificuldade de encaixá-la nas linhagens evolutivas. “Uma abordagem prática é classificar um fóssil na categoria homo quando a massa e a proporção corporais, as dimensões dos dentes e as adaptações do esqueleto mostram maior semelhança com os humanos modernos do que com os fósseis dos australopitecos”, esclarece o Dr. Ronny Nalin, pesquisador do GRI e Ph.D em Ciências da Terra pela Universidade de Pádua, na Itália.

Partindo desse referencial, o Dr. Nalin diferencia dois supostos ancestrais do homem. Para ele, o homo habilis está mais para australopitecos do que homo, porque, apesar de andar sobre dois pés, tem braços semelhantes aos de macaco, enquanto a estrutura física do neandertal se parece com a dos esquimós. Por isso, alguns pesquisadores brincam que, se um neandertal barbeado, de terno e usando um iPhone entrasse no metrô de Nova York, passaria despercebido.

 

HOMEM DAS CAVERNAS

Ao que tudo indica, o neandertal foi o homem das cavernas. Para os criacionistas, ele foi humano e habitou nas grutas da Europa e Ásia oriental. O Dr. Nalin cita, por exemplo, um estudo publicado na prestigiada revista Science, em 2010, que mostra que algumas populações de hoje carregam em seus segmentos genômicos de DNA vestígios dos neandertais.2 “Se dois organismos podem cruzar e produzir descendentes férteis, eles pertencem à mesma espécie. Portanto, o neandertal pode ser considerado humano”, confirma o pesquisador.

Os criacionistas ressaltam que escolher as cavernas como casa e ter hábitos da Idade da Pedra não são exclusividades das comunidades pré-históricas. “Os homens das cavernas são homens que viveram ou talvez ainda vivam em cavernas, já que essa condição de vida faz parte da história humana até períodos recentes”, justifica o Dr. Rubén Aguilar, fazendo referência a algumas comunidades descobertas nas últimas décadas no interior da África e nas ilhas do Sul do Pacífico.

 

MODO DE VIDA

Se a identidade dos homens das cavernas está mais ou menos definida, faltam informações sobre o modo de vida desses grupos. O professor Matusalém, coordenador do Núcleo de Estudos Pré-históricos da UEPB, tem se dedicado a estudar e ensinar o tema, ainda pouco explorado pela literatura criacionista. Em seu livreto A Pré-História na Perspectiva Criacionista, ele faz referência ao livro do naturalista Harry Baerg, autor do clássico criacionista O Mundo Já Foi Melhor.

Para Matusalém, os homens das cavernas foram os marginalizados da Pré-História, pessoas que por doença ou inadequação social foram expulsas das sociedades estabelecidas, tendo assim que viver em lugares isolados. As cavernas, segundo o professor, têm as condições climáticas ideais para preservar o que esse grupos registraram.

O que os desenhos mostram, via de regra, são os hábitos de caça e pesca como atividades de sobrevivência e ritos religiosos. “Nos lugares mais particulares das cavernas eram oferecidos sacrifícios aos deuses, suplicando a eles por sucesso nas caçadas ou a manutenção da fertilidade”, descreve o professor, que tem alguns artigos publicados sobre a arte rupestre da Paraíba.

“Alguns grupos mais estabilizados e com nível cultural mais elevado construíram habitações mais permanentes, cultivaram a terra e domesticaram animais. Em certos lugares da Europa, houve uma religiosidade mais elaborada, como mostram os megalíticos de Stonehenge”, exemplifica o professor. Matusalém também cita textos bíblicos que dão pistas sobre a organização social desse período. Segundo ele, há referências sobre grupos isolados que viviam em cavernas no livro mais antigo da Bíblia (Jó 30:3-8); e sobre a criação de animais, cultivo da terra, desenvolvimento musical e urbano e uso da metalurgia em tempos bem remotos (Gn 4:16-24).

 

 

PERGUNTAS SEM RESPOSTA

No fim das contas, o que é certo sobre a Pré-História é que ainda faltam muitas peças do quebra-cabeça. Os criacionistas se perguntam: Onde estão os fósseis dos homens gigantes que habitaram a Terra ou dos que foram mortos no dilúvio? Ou por que os fósseis aparecem nas camadas estratigráficas, organizados como se realmente tivessem evoluído?

Os evolucionistas, por sua vez, também coçam a cabeça em busca de respostas. As transições-chave da linhagem evolutiva não foram demonstradas de forma inequívoca. O elo ainda está perdido? Ou por que o Homo sapiens demoraria milhares de anos para dominar ferramentas rudimentares e passar a escrever?

Essa ignorância parcial sobre nosso passado tem seus benefícios, conforme argumentou Gary W. Burdick, Ph.D em Física pela Universidade do Texas, em seu capítulo do livro Mistérios da Criação.3 Burdick defende que a humildade é fundamental no estudo das ciências e da teologia.

“Não devemos nos surpreender se as tentativas de conciliar a ciência com a teologia nos levarem a mais perguntas sem resposta. Isso não quer dizer que a ciência e a teologia estejam em guerra ou que um lado deva ser o vencedor; e o outro, o derrotado. Ao contrário, isso nos dá mais uma indicação de que Deus e a realidade são maiores do que nossa compreensão”, argumenta, insistindo que a pesquisa em ambas as áreas deve continuar.

Mas, Burdick lembra que talvez algumas questões nunca serão respondidas pela ciência, nem pela teologia. Para essas perguntas, os cristãos parecem levar mais uma vantagem. A mensagem central do evangelho é a salvação e não as explicações sobre a realidade que nos cerca.

Logo, ainda que o homem não mate suas curiosidades intelectuais, a solução para suas necessidades existenciais já existe e está disponível. Quem acredita no relato da Bíblia sobre a Pré-História tem uma visão antecipada do quadro completo e não se desespera quando uma peça ou outra parece não se encaixar.

 

 

 

 


REFERÊNCIAS
1Kennedy, Elaine. “A Busca dos Ancestrais de Adão”, Diálogo Universitário 8(1), 12-15, 34 (http://dialogue.adventist.org/articles/08_1_kennedy_p.htm).
2R. E. Green et al., “A Draft Sequence of the Neandertal Genome”, Science 328 (2010): 710-722 3Gibson, L. James e Rasi, Humberto M. (orgs.), Mistérios da Criação (CPB, 2013).

 

Fonte: Revista Conexão 2.0 – 1º trimestre/2013. Texto: Wendel Lima. Ilustrações: Thiago Lobo e Fotolia

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Wendel Lima
1 Comment
  • Neusa

    18 de dezembro de 2017 at 23:31

    Por que não viemos do nada e nada é por a caso. Alguém fez tudo o que conhecemos ou agiu de forma para que tudo existisse. Eu creio que Deus é o maior arquiteto ou maestro do Universo.

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