Os desafios da internet
| Por Henrianne Barbosa
Selena Castelão Rivas, coordenadora do curso de Pedagogia da Faene (Imagem: Arquivo Pessoal)
Trabalhou no setor público, como professora e coordenadora na Universidade do Estado da Bahia (Uneb) e diretora na Secretaria de Educação e Cultura do município baiano de Catu.
Utiliza a internet principalmente como fonte de pesquisa para trabalho e estudos. No âmbito profissional, está começando a usar o Moodle, sistema destinado à criação de comunidades on-line em ambientes virtuais voltados para a aprendizagem.
Nascida em lar adventista, na cidade de Alagoinhas, BA, é casada com André Luís Marocci Rivas e são pais de Gabriel, 4 anos. Nesta entrevista concedida a Henrianne Barbosa, Selena fala sobre a importância de os pais conhecerem a web e seus diversos formatos, a fim de educar os filhos para o mundo virtual a partir dos princípios estabelecidos por Deus.
Especialistas afirmam que permitir a uma criança acessar a internet sem restrições é o mesmo que deixá-la sozinha em uma esquina de uma grande cidade. Que riscos a internet pode representar à infância?
A internet é mais do que uma ferramenta tecnológica, de caráter neutro. Essa linguagem tem alterado rapidamente nossos hábitos pessoais e sociais. Por isso, devemos identificar o que há de positivo e negativo, bem como seus possíveis riscos. Por outro lado, a infância é um período significativo para o ser humano. A criança está bastante suscetível às influências externas, aberta a diferentes experiências, sem ter condições de saber o que é adequado ou não. Por isso, precisa ser acompanhada. Diante de um espaço aberto como a internet, a infância corre o risco de não se desenvolver de modo pleno. O acesso indevido a sites pode afetar negativamente a autoestima da criança, contribuir com a desvalorização das crenças assumidas no lar e provocar o isolamento. Há também o risco da pornografia e pedofilia. Do ponto de vista físico, esse contato inadequado pode contribuir para má postura e sedentarismo infantil.
Um relatório sobre tecnologias e educação diz que os pais devem proteger seus filhos da internet do mesmo modo que os protegem de piscinas – ensinando-os a nadar. Como educar a criança para o mundo virtual?
Compreendo que a educação para o mundo virtual precisa ocorrer da mesma maneira que o fazemos para o mundo real: a partir de princípios claros, regras bem estabelecidas, acompanhamento dos hábitos da criança. É preciso conversar com ela, perguntar sobre o que vê e ouve, confrontando ideias. E apresentar os princípios e normas estabelecidos, com muita paciência e perseverança. O que nos interessa, de fato, é que nossas crianças e adolescentes aprendam a aprender, a ser e a conviver a partir dos princípios estabelecidos por Deus. Há diferentes lugares de acesso à internet como o lar, casa de amigos e escola. O que não podemos perder de vista são os princípios que sustentam a educação dos filhos e isso independe do local em que acessam a internet. A criança ou adolescente que internaliza tais princípios será capaz, pela graça de Deus, de se portar corretamente nos distintos espaços e realidades. Nossa função como pais e educadores é estimular uma decisão pessoal consciente sobre o que ler, ver, acessar, comer, vestir, etc., a partir do que o apóstolo Paulo orienta: tudo o que é verdadeiro, nobre, correto, puro, amável e de boa fama.
Colocar o computador em um local visível, monitorar os sites acessados e usar filtros são dicas importantes, mas nada substitui o diálogo. O que os pais devem dizer aos filhos sobre a internet?
Filhos precisam de contato íntimo, de troca, de confiança mútua, de transparência e de limites. Mais que isso, filhos precisam de exemplo. Isso para mim é a essência do diálogo. Aí o falar se torna ativo e o ouvir significativo, possibilitando ao filho compreender os riscos e as possibilidades do acesso à internet. Lamento o tempo que nós pais temos que dedicar ao trabalho para a sobrevivência da família, delegando a responsabilidade da educação à escola e às atividades extracurriculares como cursos de natação, língua estrangeira, etc. Não dá para educar filho a distância.
A internet é acusada de atrapalhar a sociabilidade, prejudicar o desenvolvimento emocional, provocar doenças como obesidade infantil. Pode também representar um risco à espiritualidade?
A internet facilita o acesso a conteúdos, pessoas e situações, os quais, em circunstâncias normais, seriam mais difíceis de acontecer. Cada linguagem pode ser bem utilizada ou não. Isso diz respeito também à internet. Somos seres religiosos por natureza e estamos sempre buscando o sentido da existência humana. Se a relação do indivíduo com a internet no que diz respeito às escolhas, ao tempo e à forma não for orientada pelos princípios cristãos, a consequência será o afastamento do que é espiritualmente relevante, enfraquecendo o indivíduo por inteiro. O desenvolvimento da espiritualidade também é algo que demanda tempo, esforço pessoal, disciplina e tomada de decisão.
Quais os benefícios que a internet oferece à formação educacional de crianças e adolescentes?
O cérebro precisa ser permanentemente estimulado com novas possibilidades. Se bem utilizada, a internet pode possibilitar um bom exercício cognitivo, estimular a criatividade e o espírito investigativo. Imaginemos uma criança e um adolescente que estejam em etapa escolar, com acesso a culturas, paisagens, espaços, idiomas e crenças distintos dos seus, podendo estabelecer diferenças, semelhanças, criando hipóteses sobre o novo! Esses são caminhos viáveis e desejáveis na formação educacional atual e uma exigência do mundo do trabalho. Não dá para negar isso às crianças e adolescentes.
Existe uma idade mínima de acesso à web e um tempo diário recomendado?
Essa é uma pergunta delicada. Gabriel, meu filho, nasceu no fim de meus estudos do doutorado. Viu a mãe em frente a uma máquina com cores e formatos atrativos. Com que idade foi atraído pelo misterioso objeto que consumia boa parte do tempo de sua mãe? Aos dois anos, começou a interagir com o computador utilizando a memória visual. Hoje sabe a diferença entre “os jogos de Jesus” e “os que não são de Jesus”, é assim que ele diz. Temos estabelecido que ele pode acessar a rede uma vez por dia, num tempo máximo de uma hora. Este ano, Gabriel vai à escola pela primeira vez e tenho me perguntado como será. O currículo escolar prevê, desde a educação infantil, o contato da criança com o mundo virtual através de pesquisas, jogos e projetos. O desejável em minha visão é que a criança tenha um farto acesso aos brinquedos e brincadeiras próprios da idade, aos livros de histórias, poesias e às atividades que impliquem movimento em maior tempo do que em frente ao computador.
A internet possibilita a interatividade por meio de blogs, Orkut, salas de bate-papo, chats, e-mails. Quais cuidados os pais devem ter com os diferentes formatos virtuais interativos?
É necessário que os pais conheçam, experimentem e estejam atentos a esses formatos virtuais. Primeiro, porque tais formatos fazem parte do cotidiano e, segundo, porque outros continuarão aparecendo. Através da web, as pessoas se conhecem, trabalham, se expõem e são expostas de diversas maneiras. Elas dão sua opinião, assumem diferentes papéis sociais e até simulam vidas que não são suas. Existem inúmeras formas de fazer com que um conteúdo indesejado chegue a um de nós. Por exemplo, no caso da pedofilia, sabe-se que um pedófilo pode se passar por outra criança, utilizando fotos e imagens infantis sem risco aparente. Como ter certeza sobre quem está do outro lado da tela e quais são suas intenções? No caso do Orkut, conheço um professor de ensino religioso que utilizava esse formato para estar mais perto dos alunos, facilitando a abordagem de temáticas cotidianas. Contudo, um Orkut também pode ser utilizado para disseminar ideias e condutas imorais. Os e-mails são permanentemente alvos de vírus e golpes financeiros. Enfim, o ser humano continuará caminhando e outras formas de comunicação e informação chegarão às novas gerações. Nosso desafio e preocupação não podem estar circunscritos apenas à questão da internet. Mais do que nunca precisamos educar crianças e adolescentes com base em princípios sólidos que não envelhecem. E uma boa maneira é participar ativamente da vida deles, apontando caminhos.
Não adianta apenas proibir o acesso a determinados sites. É preciso oferecer opções. Quais as opções mais indicadas na web para a formação cristã de crianças e adolescentes?
É preciso deixar claro para a criança e, principalmente, para o adolescente o que pode e o que não pode ser acessado. Não vejo problema em proibir o acesso ao que quer que seja se isso é claramente discutido e há um acordo entre pais e filhos como resultado da educação no lar. O não e o sim existem para serem vivenciados. No entanto, precisamos dar opções às crianças e adolescentes. Tais opções devem considerar não apenas o que é lícito, mas, sobretudo, o que é o melhor dentro do que é permitido. Trata-se de fazer escolhas com qualidade e sabedoria. É preciso procurar com atenção e calma. Devemos priorizar sites que fortaleçam os valores da formação cristã evidenciados a partir do respeito a si, ao outro e à natureza, cooperação, amor a Deus, verdade, etc. O lar, a escola e a igreja podem auxiliar muito se estiverem atentos, favorecendo espaços de discussão e reflexão sobre a internet.
[Fonte: Revista Adventista. Fev. 2009]
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