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Senador Cristovam Buarque

| Por Olivandro Maia

O senador Cristovam Ricardo Cavalcanti Buarque (PDT – DF), é natural de Recife, Pernambuco, tem 65 anos, é graduado em engenharia mecânica pela Universidade Federal do Pernambuco, economista, educador e professor universitário. É casado e tem duas filhas.

De sua carreira política, destaca-se a de governador do Distrito Federal de 1995 - 1999. Ministro da Educação do presidente Luís Inácio Lula da Silva em 2003 e início de 2004. Foi candidato a presidente da República em 2006 pelo PDT, obteve a quarta colocação no primeiro turno, atrás de Lula, Geraldo Alckmin e Heloísa Helena. Atualmente é senador, tendo sido eleito em 2003.

Em 1966, envolveu-se com a política estudantil, tendo sido militante da Ação Popular. Devido às perseguições da ditadura, seguiu para um autoexílio na França, onde obteve o doutorado em Economia pela universidade de Sorbonne (Paris), em 1973. Trabalhou no Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID) entre 1973 e 1979, tendo ocupado postos no Equador, em Honduras e nos Estados Unidos. Foi reitor da Universidade de Brasília o primeiro por eleição direta, após a ditadura militar.

Autor de dezenas de livros tem inúmeros artigos publicados e foi consultor de diversos organismos nacionais e internacionais no âmbito da ONU. Presidiu o Conselho da Universidade para a Paz da ONU e participou da Comissão Presidencial para a Alimentação, dirigida pelo falecido sociólogo Herbert de Souza, o Betinho.

É membro do Instituto de Educação da Unesco. Criou a ONG Missão Criança, que patrocina um programa de bolsa escola para mais de mil famílias, com recursos oriundos da iniciativa privada. Foi agraciado com o Prêmio Jabuti de Literatura de 1995, na categoria Ciências Humanas.

No dia 13 de maio, foi realizada no Senado a vigília em defesa da preservação da floresta amazônica. O ato foi organizado pela Comissão Mista Permanente sobre Mudanças Climáticas da Casa, que tem como um de seus membros o senador Cristovam Buarque. A vigília estava aberta à participação da sociedade civil que debateu as ameaças à floresta, as políticas públicas para a região e as iniciativas de lei sobre o tema.

No dia seguinte a vigília (14/05), o Portal da Educação Adventista conseguiu uma entrevista exclusiva com o senador Cristovam Buarque, que gentilmente por telefone falou sobre a educação no Brasil. Falou da destruição causada pelo desmatamento na Amazônia, a criação do Movimento Educacionista e o novo Enem. “Com uma boa educação a saúde melhora, a corrupção diminui, a eficiência aumenta, a desigualdade diminui. A educação é o centro da transformação de um país”, defendeu o senador.

Outro ponto de destaque da entrevista foi o fato do senador priorizar a tecnologia nas escolas como ferramenta fundamental de ensino. “Criança não gosta mais de quadro negro. Não acredita mais que a lua é um pontinho de giz desenhado no quadro negro. A criança está acostumada a ver a lua na televisão, bonita e visível. Você faz tudo isso pelo computador, o movimento dos astros”, e completou falando sobre o aperfeiçoamento dos professores para o uso da tecnologia em sala de aula: “O professor que não entende de tecnologia não é um bom professor. É a mesma coisa que um médico fazendo a cirurgia sem anestesia”, comparou.

A seguir acompanhe os melhores trechos da entrevista.

Em seu discurso, na vigília do Senado contra o desmatamento da Amazônia, vossa excelência comparou o país a um crematório, pois queima as florestas e os cérebros das crianças que deixam de ir à escola. Quem seria o responsável por colocar fogo nesse crematório que está queimando o cérebro dessas crianças?
Todos nós somos responsáveis por isso, não dá para acusar uma única pessoa, obviamente quanto mais alto o cargo da pessoa, mais responsável. Os presidentes da República nos últimos anos são os principais culpados, nós parlamentares também, ficamos omissos, não estamos dando as respostas. Todo o povo brasileiro também. Porque somos nós que elegemos os dirigentes, seja porque fechamos os olhos, seja porque quem está fazendo isso são os brasileiros também. Então o país todo é culpado pelo imenso crematório. Que queima dez campos de futebol por minuto em árvores e joga fora 60 crianças por minuto das escolas.

A visão de vossa excelência quando estava exilado na França na década de 70 sobre a educação no Brasil continua a mesma?
Havia uma diferença, naquela época havia boa escola pública, mas para poucos. O que mudou no Brasil é que as escolas chegaram a praticamente todos, mas ficou ruim. Nós não conseguimos fazer a mudança educacional para garantir a educação para todos com escolas boas. Hoje tem um projeto meu no Senado que obriga todo o parlamentar colocar seus filhos na escola pública, e dizem que é demagogia. Quando eu era menino só conseguia vaga em escola pública boa, só quem fosse filho de deputado, de senador, quem tivesse o pai amigo do governador. Só as classes mais privilegiadas conseguiam entrar nas escolas públicas. Os outros iam para os seminários, ou para a escola militar, mas não conseguiam entrar nas escolas públicas. Agora é ao contrário você não vê as pessoas influentes colocando seus filhos nas escolas públicas. A outra diferença é que em 1970 a educação não era tão fundamental ainda. Naquela época uma pessoa com três meses num curso no Senai virava um torneiro mecânico, virava um operário, mão de obra. Hoje não basta isso. Hoje se fala com a máquina pelo computador. Hoje não se pega com a mão, hoje se aperta os botões. Quem não tem conhecimento não consegue um bom emprego. Antigamente até mesmo uma pessoa analfabeta conseguia um emprego razoável, hoje não consegue mais, então mudou. Hoje a exigência da educação é muito maior do que há 30 anos.

O senhor defende tanto a educação que criou o Movimento Educacionista. O movimento Educacionista é revolucionário ou transformador?
Ele é revolucionário, mas não na economia. Não precisa mexer na economia.

Ele precisa acabar com o atual sistema ou vai transformando aos poucos?
Boa pergunta. Ele vai transformando rapidamente em poucas cidades. E vai transformando aos poucos no Brasil inteiro. Se mudar o Brasil todo ao mesmo tempo, será muito vagaroso, não dá pra ser depressa. Não temos professores, não temos equipamentos. Não temos dinheiro pra fazer essa mudança no Brasil todo. Aos poucos no Brasil inteiro. Fazendo uma mudança radical em poucas cidades, e ai você vai aumentando as cidades. Você contrata 100 mil novos professores pagando R$ 4 mil, por mês, com isso você concentra esses professores nessas cidades. São 10 mil escolas, 3 milhões de crianças. A cada ano você aumenta 3 milhões de crianças, 250 novas cidades, 10 mil novas escolas aí levará 20 anos para chegar ao Brasil inteiro. É radical e rápido na cidade, e devagar no Brasil inteiro.

Em sua opinião os problemas sociais estão ligados apenas à falta de uma boa educação?
Apenas não pode se dizer, porque você não pode ter uma boa educação se não tiver uma saúde razoável. Se não tiver transporte as crianças não vão à escola. Se os pais estivessem desempregados os filhos estariam sem estudar. Então não dá pra dizer que só a escola resolve. Agora a escola é o centro da transformação. Todos os problemas sociais passam pela escola, mas só com a escola a gente não resolve. Imagina uma escola no meio do mato, sem uma estrada, não funciona, os professores não chegam lá. Então tem que ter transporte. Imagine hepatite em todo mundo, o aluno não vai à escola. Tudo passa pela educação. Com uma boa educação a saúde melhora, a corrupção diminui, a eficiência aumenta, a desigualdade diminui. A educação é o centro da transformação de um país.

Qual é a relação do Movimento Educacionista com a pedagogia defendida por Paulo Freire?
A pedagogia da libertação é uma idéia, não é um instrumento de transformação. O Movimento Educacionista não é preso à pedagogia da libertação. Nós aceitamos qualquer pedagogia. Nós defendemos a liberdade pedagógica. O que a gente quer é a escola com a mesma qualidade para todos. Uma escola pode utilizar o método Paulo Freire, outra usando o método evangélico, outro católico. Não há problema no método.

Então promover uma boa educação não fica apenas a dever do governo?
A boa educação depende, sobretudo de três coisas: escola, família e a mídia. Se a família não acompanha a educação não adianta uma escola boa. Quando a família não acompanha e a criança, ela fica 4 horas vendo uma televisão ruim. Temos que colocar a mídia a serviço da educação, a família preocupada com a educação e a escola dando a educação. Não é só o governo, nem só a família, a mídia também, a mídia é privada.

E o baixo rendimento dos alunos está associado apenas aos educadores mal preparados? E os estudantes são totalmente passíveis disso?
Não é só por causa dos educadores mal preparados, isso também ou até principalmente, mas se você coloca o melhor educador do mundo numa escola caindo os pedaços com crianças sem assistência familiar a escola vira uma bagunça, a escola cai na violência. Aí por mais que você seja um bom educador, não vai conseguir dar uma boa educação. O centro da escola é o professor, mas não é só o professor. Hoje um bom professor só com quadro negro não dá uma educação. Ele tem que ter televisão, computador. Criança não gosta mais de quadro negro. Não acredita mais que a lua é um pontinho de giz desenhado no quadro negro. A criança está acostumada a ver a lua na televisão, bonita e visível. Você faz tudo isso pelo computador, o movimento dos astros. Agora hoje chega um professor, faz um pontinho e diz: isso aqui é a Lua, isso aqui é a Terra, aí faz uma roda. Isso tem que ser mostrado com cores pela televisão, pelo computador. O professor que não entende de tecnologia não é um bom professor. É a mesma coisa que um médico fazendo a cirurgia sem anestesia.

Qual a opinião de vossa excelência sobre o Enem como instrumento de vestibular?  
Eu sou favorável, eu acho que é positivo a gente ter esse método, é positivo, mas não é revolucionário. Revolucionário é o que existe em Brasília que eu criei. Na Universidade de Brasília o aluno não faz mais vestibular. O aluno pra entrar na universidade ele faz uma prova no final do 1º ano do Ensino Médio, outra no 2º ano, e outra prova no 3º ano. Com a média é que ele entra na Universidade. Eu defendo esse sistema que se chama Programa de Avaliação Seriada, mas substituir o vestibular atual pelo Enem já é um avanço, mas um avanço muito pequeno, não muda nada. A única vantagem é que os ricos reservam mais vagas que os pobres. Porque os ricos estão fazendo vestibular em todas as cidades. Pega o avião vai para Campinas, pega o avião vai para a Bahia, pega o avião vai para o Rio até passar numa, enquanto a população pobre só pode fazer vestibular na sua cidade. Com o vestibular no mesmo dia a gente vai dar a chance pra todo mundo.

A educação de base no Brasil não está igualmente fortalecida, isso não se tornaria um problema com o novo Enem?
Você tem toda a razão, é fato que o governo está cuidando da segunda e não da primeira. A primeira é a educação boa para todos desde os quatro anos de idade até os 18 anos. O mais importante é melhorar a escola e não o Enem. Tem que ter o termômetro, mas tem que ter o remédio. O mais importante é o remédio e o remédio não está sendo dado.

Quanto ao sistema de cotas para negros nas universidades, não seria uma maneira de reafirmar a desigualdade?
Não, diminui a desigualdade racial, não de classes. Porque pelas cotas quem entrará nas universidades serão os negros de classe média e classe alta. Não vão ser os negros pobres. Os negros pobres como os brancos pobres eles são analfabetos e não poderão fazer vestibular, mas se não terminaram a 4ª série ou a 8ª não terminaram o Ensino Médio. Se terminarem o Ensino Médio em escola ruim, podem fazer vestibular, mas não passa. O sistema se cotas vai mudar a cara da elite brasileira.

Qual sua opinião sobre o ensino criacionista nas escolas?
Eu considero que é um ensino religioso e como tal a escola quem quiser dar essa formação religiosa deve ter direito, entretanto, pra mim também ela deve dar a visão da ciência que é a visão evolucionista.

O senhor conhece as escolas adventistas, qual sua opinião sobre a educação adventista?
O que eu conheço das Escolas Adventistas são os professores, prédios, a dedicação que os professores e os alunos têm. Eu tenho uma boa opinião sobre elas.

2 Comentários

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Peter Konrad Oehrling

#1

Boa entrevista, mostra que educação pode ser melhorada: minha sujestão é procurar o novo livro didático que substitui o professor no quadro negro, aluno deve ser capaz de dar aula. -escola em casa pelo livro!!!

Augusto

#2

Parabenizo a escola pela excelente matéria, mostra uma visão de inclusão e preocupação com a educação adventista.

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