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O professor mediador

| Por Charlotte Fermum Lessa

(Imagem: AVAVA/Fotolia)

INTRODUÇÃO

Nas minhas jornadas pelo mundo dos educadores, muitas vezes me deparei com aqueles que consideram o magistério apenas como mais uma profissão. Ouvi frases como: “Professor não é missionário”; “professor não é tio”; “o magistério não é um ministério”; “professor não é como padre ou pastor que trabalha de graça”.

Respeitando aqueles que pensam assim, afinal, cada um tem a liberdade de ver as coisas a seu próprio modo, seria interessante a gente escarafunchar um pouco mais a profundidade e a sublimidade da tarefa do educador.

Não se discute o fato de que ninguém tem que trabalhar de graça, e que o trabalho do bom professor merece um bom pagamento, pois “digno é o trabalhador do seu salário” (Luc. 10:7). Não se discute, também, o fato de que existem professores e PROFESSORES.

Professores que caíram de pára-quedas na área da educação; professores que encaram seus alunos como simples fonte de renda; professores meia-boca...

Mas existem os PROFESSORES: os bem preparados; os interessados no desenvolvimento de seus alunos; os que, ao passo que preocupados com a baixa renda e pouca valorização do magistério no Brasil, não descontam nos alunos a incompetência da política educacional e salarial; o professor “psicólogo” que sabe ouvir seu aluno; o professor da segunda milha.

Quem não sabe que a tarefa do professor é árdua? Isso não é novidade. E é por isso mesmo que, antes de decidir ser um mestre, o indivíduo precisa analisar profundamente seus talentos, suas inclinações, seus interesses, seu caráter, sua personalidade, seus defeitos.

Apreciei este poema de autor desconhecido (deve ter sido um professor, e dos bons), que encontrei na internet:

SER MESTRE

Tarefa difícil, mas não impossível,
tarefa que pede sacrifício incrível!
Tarefa que exige abnegação,
tarefa que é feita com o coração!
Nos dias de cansaço, nas noites de angústia,
nas horas de fardo, de tamanha luta,
chegamos até a questionar:
Será, Deus, que vale a pena ensinar?
Mas bem lá dentro responde uma voz,
a que nos entende e fala por nós,
a voz da nossa alma, a voz do nosso eu:
- Vale sim, coragem!
Você ensinando, aprende também.
Você ensinando, faz bem a alguém,
e vai semeando nos alunos seus,
um pouco de PAZ e um tanto de Deus!

CONSELHOS INSPIRADOS

“Quando todo professor esquecer o próprio eu, experimentando profundo interesse no êxito e prosperidade dos alunos, compreendendo que os mesmos são propriedade de Deus, e que ele tem que prestar contas de sua influência sobre a mente e o caráter deles, então teremos uma escola em que os anjos se deleitarão em demorar.

“Aquele (professor) que deseja conservar a própria dignidade e o respeito de si mesmo, precisa ter cuidado em não ferir desnecessariamente o respeito próprio dos demais. Esta tarefa deve ser observada como sagrada quanto aos mais pesados de inteligência, os mais jovens, os mais obtusos estudantes [itálico acrescentado]. O que Deus pretende fazer com estes aparentemente desinteressantes jovens, não o sabeis.  ...  O Senhor viu naquelas pedras brutas, não lavradas, matéria preciosa, capaz de suportar a prova da tempestade, do calor e da pressão.”  – E. G. White – Conselhos aos Professores, Pais e Estudantes, p. 91 e 92 – Casa Publicadora Brasileira – 2000.


Eis como Feuerstein apresenta seu modelo de Experiência de Aprendizagem Mediada (EAM).

(Imagem: )



Objetivos da EAM

  • Compensar, ao menos em parte, o que a criança perde devido à sua menor capacidade de aprender a partir da exposição direta ao estímulo;
  • Transmitir a história e a cultura de sua sociedade;
  • Habilitá-la a desenvolver a capacidade de aprender a partir da exposição direta ao estímulo, tornando-a menos dependente da mediação.

Critérios Básicos da EAM

São 12 os critérios básicos. Os três primeiros, entretanto, são universais, isto é, aplicam-se a qualquer cultura, nível sócio-econômico ou nacionalidade.

1. Intencionalidade e reciprocidade;
2. Transcendência;
3. Significado;
4. Sentimento de competência;
5. Regulação e controle do comportamento;
6. Compartilhar comportamentos;
7. Individuação e diferenciação psicológica;
8. Planificação e concretização de objetivos;
9. Desafio – a procura da novidade e da complexidade;
10. Conscientização da mudança – automodificação;
11. Crença no otimismo;
12. Sentimento de pertencer.

Da Introdução aos Critérios da EAM – A Ponte


Que ligação há entre a introdução do artigo e os critérios de mediação? Não é difícil perceber. Para uma mediação de qualidade, o professor precisa das qualidades mencionadas no quadro Conselhos Inspirados. Precisa haver interesse, espírito de sacrifício, muito estudo, paciência, perseverança, repetição, repetição, repetição, repetição, repetição...

Oportunamente poderemos analisar cada um dos critérios em detalhes, no momento, porém, vamos nos demorar na Mediação do Sentimento de Competência. Por quê? Porque o aluno que não se sente capaz, não consegue aprender, mesmo que você se esmere nos três primeiros critérios. Seu sentimento de incompetência bloqueia a compreensão da mais simples informação. É uma questão de autoestima, de amor-próprio, de acreditar na sua capacidade. Como, então, você pode ajudar um aprendente a se sentir capaz? Isso também é tarefa do professor?

Diferença Entre Competência e Sentimento de Competência

A competência pode ser adquirida através de muitas formas, inclusive através da interação direta com os estímulos, sem a EAM. No entanto, nem sempre a competência é acompanhada por sentimento de competência. Muitas pessoas inteligentes carecem deste sentimento, sentem-se inseguras no que fazem. Admitem o êxito justificando-o pela sorte, ou pela facilidade da tarefa.

Para que haja o sentimento de competência, o Mediador deverá considerar tanto os aspectos cognitivos como os de ordem emocional. A meta não deverá ser apenas tornar-se competente, mas sentir-se competente.

Condições para a Mediação do Sentimento de Competência

Para mediar competência, o Mediador deverá levar em conta as seguintes condições:

- Mediador SELECIONA ATIVIDADES adaptadas ao que o aluno sabe e ao esforço que se requer para alcançar o êxito;
- EQUIPA a criança com os pré-requisitos necessários para a competência. Isso implica em: poder recolher informações para resolver problemas, lidar com diferentes fontes de informação, utilizar a precisão;
- ESTIMULA a criança a perceber situações onde deva desenvolver MAESTRIA;
- A REPETIÇÃO, de forma criativa, pode ajudar a desenvolver a maestria;
- Promover FEEDBACK sobre o êxito através da reflexão sobre o motivo do êxito;
- Mediador ajuda a ANALISAR O PROCESSO MENTAL QUE CONTRIBUI PARA O ÊXITO;
- ENTENDER AS CONDIÇÕES DO ÊXITO permite que o mediado possa estabelecer relações com êxito em outras situações: “se consegui isto não há porque não consiga fazer outras coisas”. Conforme Rubinstein - Coletânea de Textos de Apoio do Seminário de Psicopedagogia.

Exemplo Prático


Felipe tinha dificuldade para ligar as sílabas. Seus pais cobravam muito dele e sempre que ele trazia notas baixas no boletim, eles o castigavam e comentavam entre si, na frente dele, o quanto era “tapado”, “desligado”, “burro”.

A professora, percebendo seu bloqueio decidiu fazer uma brincadeira: cada criança recebeu uma letra numa folha de papel sulfite pregada com fita crepe na frente da camiseta. As palavras que deveriam ser formadas foram escritas na lousa nas primeiras vezes. Com o tempo, elas eram apenas mencionadas. A princípio a professora permaneceu com Felipe a fim de facilitar sua busca da palavra. Aos poucos, porém, ele foi se independendo. Ao “cantar” CA-SA, as duas crianças com as letras C e A se deram as mãos. Depois as duas que tinham as letras S e A deram as mãos também. Uma “sílaba” foi em busca da outra “sílaba” e, dando-se as mãos, formaram a palavra.  Ela usou palavras simples a princípio, e foi aumentando o número de sílabas aos poucos. Nos primeiros dias todas as palavras escolhidas tinham a letra C, que era a do Felipe. Por exemplo: CA-BO; CA-SA; BAR-CA; CAR-RO; A-TA-CA; CU-TU-CA; BO-NE-CA; CA-BE-LO; CA-BI-NE; CA-NE-CO; A-BA-CA-TE; CA-VA-LO, etc. Houve muito barulho e algazarra, mas valeu a pena porque o aprendizado foi excelente.

Sempre que a brincadeira acabava a professora fazia um retrospecto da atividade e as crianças liam as palavras trabalhadas em voz alta, juntas. Faziam comentários sobre como se sentiram diante das dificuldades e dos desafios e como poderiam melhorar seu desempenho na próxima vez.

Essa brincadeira foi repetida semanalmente, com diferentes letras e sílabas para que Felipe tivesse muitas oportunidades de aprendizagem. Depois de algum tempo Felipe conseguiu quebrar o bloqueio e aos poucos começou a ler.

Referências:
FEUERSTEIN, Reuven – Don’t accept me as I am – helping “retarded” people to excel – Plenum Press, New York and London, 1988.
RUBINSTEIN, Edith. Coletânea de Textos de Apoio do Seminário de Psicopedagogia. p. D 40-45.
WHITE, Ellen. Conselhos aos Professores, Pais e Estudantes. Tatuí, SP: Casa Publicadora Brasileira, 2000. P. 91 e 92.

2 Comentários

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ester

#1

a ecola tem um bom ensino eu estudo la a 4 anos

Euda D'arc dos Santos Lima Abr

#2

Gostei muito da proposta de recupera alunos, que estão com dificuldade de aprendizagem. Gostaria de conhercer melhor o projeto, se possivel. Obrigada!!!!

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