Deus ama – você ama?
| Por Charlotte Lessa
(Imagem: notkoo/Eclipse Digital/Shutterstock)
Fofo (acima do peso), agitado, lindo, corria de um lado para outro enquanto eles tentavam conversar comigo.
– Zezinho (nome fictício) tem quatro anos e foi rejeitado nas escolas por onde passou, porque ninguém sabe lidar com ele, nem mesmo meus parentes – disse a mãe com voz embargada. – Nossa única esperança é o Espaço Infantil Cantinho Feliz.
Deixei Zezinho com a professora enquanto entramos e fomos conversar com mais calma. O garoto foi matriculado e estudou conosco durante os oito anos seguintes. Creio que vale a pena recordar um pouco da incrível história de Zezinho.
Primeiro contato com os limites
Depois da conversa, olhei no relógio e vi que era hora de ir ao banco antes que fechasse. Voltamos para os fundos, onde funcionava a escolinha, e nos deparamos com Zezinho subindo a escada do escorregador. Deixamos que escorregasse e fui conversar com ele. Não me deu ouvidos. Estava com a mente no brinquedo. Segurei sua mão, mas ele se soltou e voltou às escadas. Escorregou de novo. Tentei falar com ele outra vez, só para ele voltar correndo para seu momento de prazer.
Vi que aquela abordagem não estava dando resultado e que eu perderia a hora. Esperei por ele na frente do escorregador e, assim que ele chegou no chão, antes mesmo de se levantar, segurei seus braços, olhei nos olhos dele e disse que era hora de ir para casa com os pais. Assegurei que ele voltaria para brincar no dia seguinte. Ele esperneou e gritou tentando se desvencilhar de mim. Com os pais olhando atônitos, segurei firmemente seus punhos, virei o corpo dele e o puxei de barriga para cima até a porta de saída, sem me importar com seus gritos. Fiz som de trenzinho e, quando cheguei com ele na porta, entreguei-o para os pais. Fiquei exausta!
Aquela fora sua primeira experiência com limites. Zezinho sempre conseguia o que queria porque, segundo a mãe, quando era contrariado, sofria uma crise de epilepsia.
Quem era Zezinho?
Zezinho era o segundo de três filhos meninos. Nasceu de parto normal, sem problemas. Parecia uma criança normal, mas com o tempo os pais começaram a perceber diferenças no seu comportamento. Sua hiperatividade o afastava das outras crianças. Não parecia notar a diferença entre o sim e o não.
As crises de epilepsia começaram entre os dois e três anos. Com três crianças pequenas, a mãe estava sobrecarregada de trabalho e preocupação e, para acalmá-lo, depois de cada crise ela lhe dava uma mamadeira de achocolatado. Ele chegou a tomar quatro dessas mamadeiras por dia, o que equivalia a um litro de leite integral adoçado e com chocolate.
Em reuniões de orientação educacional com os pais, sugerimos que a mãe de Zezinho substituísse as mamadeiras por colo e atenção, deixando de lado o trabalho doméstico, priorizando a saúde do filho. Ela atendeu o conselho. Poucos meses depois, numa série de exames neurológicos, o médico detectou um tumor benigno acima do hipotálamo. E o que mais a chocou foi saber que o açúcar alimentava o tumor, fazendo-o crescer aceleradamente, provocando cada vez mais crises.
A certa altura, sugeri que ela fosse com Zezinho a uma das nossas clínicas naturistas. Foi feita a internação com plano de duas semanas. Infelizmente ela só conseguiu ficar uma. Mesmo assim, durante nove meses, Zezinho quase não sofreu crises.
Deus interfere milagrosamente
Tempos depois, quando Zezinho estava com seis anos, os médicos decidiram que era hora de operá-lo. Depois de todos os exames pré-operatórios, a cirurgia foi marcada no Hospital das Clínicas, em São Paulo. Enquanto a mãe e Zezinho estavam no hospital, nossa equipe de trabalho, agora como Associação Cristã de Educação Especial (Acede), reunia todas as manhãs para orar pelo garoto.
No dia da cirurgia, a criança foi colocada na maca e, antes de subir para o centro cirúrgico, o barbeiro foi chamado para lhe raspar a cabeça. Ao se aproximar para fazer seu trabalho, um médico desconhecido da mãe também se aproximou e leu o prontuário.
– O que vão fazer com este menino? – perguntou, dirigindo-se à mãe.
– Ele vai subir para a cirurgia – ela respondeu.
– Mãe – disse o médico, com autoridade na voz –, seu filho não vai ser operado hoje. Leve-o de volta para o quarto.
Surpresa com a decisão, ela obedeceu sem questionar. No dia seguinte, o garoto teve alta, e o médico que surgiu “do nada”, que não era ninguém mais que o chefe do Departamento de Neurocirurgia do Hospital das Clínicas, assumiu o caso e passou quatro ou cinco anos estudando antes de decidir fazer, ele mesmo, a cirurgia.
Emocionada, a mãe nos contou que Zezinho teria morrido se tivesse sido operado naquele dia.
Conclusão
Essa é uma das muitas histórias do cuidado de Deus por seus filhinhos especiais. Por que a estou relatando aqui? Porque você pode se deparar com um Zezinho na sua sala de aula. Crianças difíceis são aquelas que carecem de muito mais amor, muito mais paciência, muito mais atenção e cuidados, e pode ser que você seja chamado a amar uma dessas crianças. Nunca se esqueça: Deus as ama. Quem sou eu, quem é você para não querer amá-las?
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