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A geração Z extinguirá o manuscrito?

| Por Lilian Larroca

(Imagem: Juraj Kovac/Shutterstock)

Ao comparar a própria Bíblia recém-adquirida com a do rei Carlos VII, ambas impressas por Gutenberg, e perceber que tinham a mesma quantidade de páginas, compostas por 48 linhas iniciadas e finalizadas com as mesmas palavras, o arcebispo da França exclamou que isso só poderia ser obra do diabo (GAZETA, 2000). Sua reação ingênua e alarmista, provocada pela ignorância a respeito do então recente e revolucionário invento, suscita o riso em nossos dias. Se analisada atentamente, no entanto, a reação do arcebispo não difere muito da militância antitecnológica por vezes presente na sociedade atual.

Uma medida recente do estado de Indiana (EUA), que pode ser adotada em outros 40 estados americanos que seguem o mesmo currículo, tende a acirrar o debate. Em decisão inédita, o governo desse estado desobrigou as escolas de ensinar a escrita cursiva e recomendou o uso de teclados de computador para a realização de atividades escolares (BARRUCHO, 2011). O objetivo seria preparar os estudantes para a sociedade contemporânea, na qual o domínio das ferramentas digitais mostra-se mais significativo para o exercício profissional e atividades comunicativas em geral que a apresentação de uma boa letra.

O fato de que a medida, embora desobrigue apenas o ensino da letra cursiva, incentiva implicitamente o desuso do manuscrito, com sua substituição pela digitação, tem suscitado controvérsias. Verá a geração Z, cercada de estímulos tecnológicos desde seu nascimento, o fim da escrita? Seria realmente necessário suprimir o ensino de uma habilidade para aprimorar uma atividade que eles já realizam em grande parte do tempo, por meio de ferramentas de comunicação e participação em redes sociais?

Por relacionar-se ao ambiente educacional, a controvérsia não pode ser devidamente analisada sem a consideração de dois aspectos distintos: o aspecto comunicativo e o aspecto desenvolvimental.

Preocupação justificada ou resistência à novidade?

Faz parte da natureza humana resistir à novidade. Sua necessidade de familiaridade e redundância provoca reações que, embora “modernas”, evocam, em sua essência, o mesmo julgamento do antigo arcebispo da França. No entanto, o período inicial de estranhamento costuma dar lugar à adaptação e, a seguir, à assimilação de novos costumes e ferramentas. Por isso, se consideradas apenas pelo aspecto comunicativo, as reações contrárias à medida podem significar apenas um tumulto inicial comum aos períodos de transição.

Pode-se argumentar que a escrita é apenas um canal, um meio – e não o único – para expressar ideias por meio de palavras. Desde os antigos tabletes de argila, cunhados para registrar operações comerciais, os escritos em papiro e pergaminho, até a atual impressão ou projeção de textos, ocorreu uma verdadeira revolução, que permitiu a facilidade de produção, a redução de custos e recursos naturais utilizados e principalmente a democratização do acesso à informação. Portanto, a recomendação de substituição da escrita pela digitação seria um passo inevitável da marcha pelo progresso.

Historicamente, o progresso em relação à escrita (da cunha à impressão) proporcionou possibilidades de expansão do conhecimento, determinantes para inúmeros eventos provocados, ao menos parcialmente, pela democratização da informação, desde a expansão marítima e comercial europeia até movimentos que causaram profundas transformações sociais e políticas nos séculos XIX e XX. Se não é possível conceber o mundo hoje sem tais avanços, deve-se considerar a relevância de um processo ainda mais abrangente, que tem elevado, por meio da inclusão digital, a disseminação do conhecimento a um nível exponencial.

Excluindo-se o fato de que a falta de contato com a letra cursiva pode tornar a criança, embora alfabetizada, incapaz de compreender a escrita dos adultos alfabetizados – o que consiste num ruído de comunicação bastante interessante, visto que aponta para a falta de domínio de um código ainda corrente –, pela perspectiva da comunicação, a medida é razoavelmente justificável.

E quanto ao desenvolvimento?

Quando o aspecto desenvolvimental da supressão do ensino de certas habilidades é colocado sob os holofotes, surgem diversas perguntas, muitas delas ainda sem respostas conclusivas.

É praticamente consenso entre especialistas que a escrita manual provoca no cérebro um processamento elaborado, que exige um esforço vigoroso, especialmente do córtex pré-frontal (BARRUCHO, 2011). O exercício da escrita tem a capacidade, comprovada por meio de imagens de ressonância magnética, de ativar uma área maior do cérebro e, por esse motivo, favorece a aprendizagem de formas, símbolos e línguas, ajuda a fixar conceitos e auxilia na expressão de pensamentos e ideias. Trata-se de um ato motor capaz de provocar ativações cerebrais importantes.

A escrita manual amplia ainda a capacidade da memória de trabalho (SPRENGER, 2008), que nos permite reter a informação nova enquanto nosso cérebro busca, na memória de longo prazo, padrões ou conexões para reconhecer esse estímulo e vinculá-lo a algo já conhecido, tecendo, de fato, a aprendizagem e permitindo a solução de problemas. É a memória de trabalho que interpreta, por exemplo, um desafio e busca, da memória de longo prazo, as informações e a operação adequada para resolvê-lo, elaborando uma resposta a partir da síntese entre informações novas e conhecimento antigo (LEVINE, 2003; FONSECA, 2008). A escrita manual, portanto, é capaz de desenvolver no cérebro a capacidade de realizar tarefas cognitivas mais complexas, o que não se observa na mera digitação.

Diante da possibilidade de dificuldades no desenvolvimento de processos cognitivos por falta de exposição a situações de escrita manual que o favorecem, que efeitos isso teria no surgimento de outras habilidades e na aprendizagem global? Sabe-se que a interpretação e solução de problemas em diversas áreas de conhecimento, a realização de cálculos e muitos outros conteúdos acadêmicos e escolares dependem de outras habilidades e componentes cognitivos: pleno domínio da função simbólica, uso da memória de trabalho, noções de lateralidade bem-estabelecidas para ordenar procedimentos sequenciais, entre tantos outros (FONSECA, 2009). Em que medida seriam esses processos cognitivos afetados pela ausência das habilidades mencionadas?

Experiências anteriores que suprimiram o “fazer” para privilegiar o “utilizar” não obtiveram o sucesso esperado. Um exemplo claro foi a suposição de que, diante da tecnologia atual, a realização de algoritmos e cálculos é uma habilidade desnecessária. Afinal, as calculadoras encontram-se presentes inclusive em celulares, portados hoje por crianças de sete ou oito anos de centros urbanos. Baseados nisso, alguns sistemas de ensino elaboraram materiais didáticos que desvinculavam o ensino de Matemática da aprendizagem de algoritmos e focaram apenas na interpretação e solução de problemas por meio de calculadoras. Os resultados, no entanto, mostraram que as crianças não expostas a esse tipo de instrução tiveram o desenvolvimento de conceitos e estruturas do pensamento lógico prejudicados, impedindo o bom desempenho na solução de problemas.

As questões práticas relacionadas à sala de aula também exigem cuidadosa reflexão. Sabe-se que, embora importante no período de alfabetização (FERREIRO; TEBEROSKY, 1999), o uso da letra-bastão (ou de forma) além desse período introdutório torna a escrita mais lenta. A escrita cursiva, devido à ligação entre as letras, permite fluidez e velocidade ao registro gráfico. O prejuízo no uso do tempo em aula poderia tornar-se considerável. O problema de velocidade e, portanto, do aproveitamento da aula, solucionado pela digitação em computadores, segundo a proposta americana, depende de condições econômicas “ideais”: a disponibilização de um computador por aluno para anotações em sala de aula e para consulta e realização de tarefas em casa. Essas condições “ideais”, talvez possíveis naquela sociedade, estão claramente distantes da realidade educacional brasileira.

A perspectiva desenvolvimental, portanto, sugere cautela na supressão do ensino de habilidades, entre os quais a escrita manual cursiva. Pesquisas seriam de fundamental importância na definição do impacto do uso de teclados em detrimento do manuscrito, para nortear a ampla aplicação da medida ou seu abandono.

Negligência em pesquisas

A decisão tomada pelo estado de Indiana, já alardeada pela mídia, revela a gravidade de uma questão muito apropriada à área de educação, provavelmente maior que a própria questão da escrita: a implantação de medidas sem pesquisas de médio prazo que a respaldem. O setor educacional, de fundamental importância para o desenvolvimento de qualquer país, tende a implantar medidas, métodos e alterações curriculares por razões meramente filosóficas, sem realizar pesquisas científicas ou considerar o resultado das já existentes (BOUNDS, 2010).

Em outras áreas do conhecimento, entre as quais as indústrias de alimentos e farmacêutica, a implantação de medidas só seria autorizada depois da aplicação da proposta a um grupo experimental por um período razoável e sua comparação com um grupo de controle nas mesmas condições, a fim de verificar o desenvolvimento dos componentes cognitivos já apresentados. Apenas após um estudo realmente aprofundado seria possível determinar o impacto educacional e desenvolvimental dessa medida e indicar sua implantação.

Referências bibliográficas


BARRUCHO, Luís Guilherme. A mão ativa o cérebro. Veja, São Paulo, ed. 2.227, ano 44, n. 30, p. 94 e 95, 27 jul. 2011.
BOUNDS, Gwendolyn. How handwriting trains the brain. 5 out. 2010.  Disponível em:
<http://online.wsj.com/article_email/SB10001424052748704631504575531932754922518-lMyQjAxMTAwMDAwNDEwNDQyWj.html >. Acesso em: 13 set. 2011.
FERREIRO, Emília; TEBEROSKY, Ana. Psicogênese da língua escrita. Porto Alegre: Artmed, 1999.
FONSECA, Vitor da. Cognição, neuropsicologia e aprendizagem: abordagem neuropsicológica e psicopedagógica. 4. ed. Petrópolis: Vozes, 2009.
_____. Desenvolvimento psicomotor e aprendizagem. Porto Alegre: Artmed, 2008.
GAZETA, Sônia Maria. In: TIMM, Alberto Ronald (Ed.). A colportagem adventista no Brasil: uma breve história. Engenheiro Coelho: Imprensa Universitária Adventista, 2000.
LEVINE, Mel. Educação individualizada: motivação e desenvolvimento sob medida para seu filho. Rio de Janeiro, Campus, 2003.
SPRENGER, Marilee. Memória – como ensinar para o aluno lembrar. Porto Alegre: Artmed, 2008.

1 Comentários

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Andre Rocha

#1

Hoje em dia todos nós temos nos preocupados muito com questões, como: O quê fazer com o meu filho em relação as novas tecnologias ?, Será, que meu filho estará preparado para o novo mundo ? Será que isso vai desaparecer, será que aquilo vai tomar o lugar disso? Temos vivido e pautado a educação de nossos filhos, para o imediatismo das novas tecnologias, como se o saber e o conhecimento existi-se, apenas, nessa esfera da vida deles. sinto que as vezes, nós adultos, sejam, pais, educadores ou outros agentes sociais, levamos as futuras gerações a esse estado de estresse e frenesi em busca do novo. Nós temos deixado de lado o verdadeiro valor da educação,que é a convivência harmônica entre as diferenças, o aprender com o passado, afim de construir um novo futuro.Decidimos que não é mais importante ensinar a letra cursiva, só que esquecemos de perguntar para as nossas crianças , se verdadeiramente elas estão contentes em escreverem apenas, por digitação, ou se, esta tem sido a forma como nós os temos ensinados. Posso, relatar que nem sempre a web e as ultimas novidades tecnológicas, são o mais importante para as crianças. Um dia desses recebi de um amigo um jogo pedagógico, o segredo dos montes, ele comprou no site de mesmo nome, e me presenteou, achei estranho ganhar um game-book, algo parecido como jogo de tabuleiro e livros infantis. Porém ele disse que era para eu brincar com os meus filhos, levei o material para casa, mais um brinquedo que ficaria na prateleira ,juntamente com os outros, por causa do vídeo game. Propus aos meninos brincarmos com o game-book. qual foi a minha surpresa, ver que meus filhos largaram o vídeo game e ficaram mais de duas horas brincando e jogando comigo. Pude sentir naquele momento que muito mais do que informações, meus filhos precisavam de conhecimento. conhecimento este que apenas pais e professores , podem dar, por que retratam uma coisa chamada experiencia.. Então eu digo que as gerações Z, Y, W, e quantas surgirem estaram conectadas as novidades, porém, ainda necessitam estar conectadas aos adultos.

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