A geração Z extinguirá o manuscrito?
| Por Lilian Larroca
(Imagem: Juraj Kovac/Shutterstock)
Uma medida recente do estado de Indiana (EUA), que pode ser adotada em outros 40 estados americanos que seguem o mesmo currículo, tende a acirrar o debate. Em decisão inédita, o governo desse estado desobrigou as escolas de ensinar a escrita cursiva e recomendou o uso de teclados de computador para a realização de atividades escolares (BARRUCHO, 2011). O objetivo seria preparar os estudantes para a sociedade contemporânea, na qual o domínio das ferramentas digitais mostra-se mais significativo para o exercício profissional e atividades comunicativas em geral que a apresentação de uma boa letra.
O fato de que a medida, embora desobrigue apenas o ensino da letra cursiva, incentiva implicitamente o desuso do manuscrito, com sua substituição pela digitação, tem suscitado controvérsias. Verá a geração Z, cercada de estímulos tecnológicos desde seu nascimento, o fim da escrita? Seria realmente necessário suprimir o ensino de uma habilidade para aprimorar uma atividade que eles já realizam em grande parte do tempo, por meio de ferramentas de comunicação e participação em redes sociais?
Por relacionar-se ao ambiente educacional, a controvérsia não pode ser devidamente analisada sem a consideração de dois aspectos distintos: o aspecto comunicativo e o aspecto desenvolvimental.
Preocupação justificada ou resistência à novidade?
Faz parte da natureza humana resistir à novidade. Sua necessidade de familiaridade e redundância provoca reações que, embora “modernas”, evocam, em sua essência, o mesmo julgamento do antigo arcebispo da França. No entanto, o período inicial de estranhamento costuma dar lugar à adaptação e, a seguir, à assimilação de novos costumes e ferramentas. Por isso, se consideradas apenas pelo aspecto comunicativo, as reações contrárias à medida podem significar apenas um tumulto inicial comum aos períodos de transição.
Pode-se argumentar que a escrita é apenas um canal, um meio – e não o único – para expressar ideias por meio de palavras. Desde os antigos tabletes de argila, cunhados para registrar operações comerciais, os escritos em papiro e pergaminho, até a atual impressão ou projeção de textos, ocorreu uma verdadeira revolução, que permitiu a facilidade de produção, a redução de custos e recursos naturais utilizados e principalmente a democratização do acesso à informação. Portanto, a recomendação de substituição da escrita pela digitação seria um passo inevitável da marcha pelo progresso.
Historicamente, o progresso em relação à escrita (da cunha à impressão) proporcionou possibilidades de expansão do conhecimento, determinantes para inúmeros eventos provocados, ao menos parcialmente, pela democratização da informação, desde a expansão marítima e comercial europeia até movimentos que causaram profundas transformações sociais e políticas nos séculos XIX e XX. Se não é possível conceber o mundo hoje sem tais avanços, deve-se considerar a relevância de um processo ainda mais abrangente, que tem elevado, por meio da inclusão digital, a disseminação do conhecimento a um nível exponencial.
Excluindo-se o fato de que a falta de contato com a letra cursiva pode tornar a criança, embora alfabetizada, incapaz de compreender a escrita dos adultos alfabetizados – o que consiste num ruído de comunicação bastante interessante, visto que aponta para a falta de domínio de um código ainda corrente –, pela perspectiva da comunicação, a medida é razoavelmente justificável.
E quanto ao desenvolvimento?
Quando o aspecto desenvolvimental da supressão do ensino de certas habilidades é colocado sob os holofotes, surgem diversas perguntas, muitas delas ainda sem respostas conclusivas.
É praticamente consenso entre especialistas que a escrita manual provoca no cérebro um processamento elaborado, que exige um esforço vigoroso, especialmente do córtex pré-frontal (BARRUCHO, 2011). O exercício da escrita tem a capacidade, comprovada por meio de imagens de ressonância magnética, de ativar uma área maior do cérebro e, por esse motivo, favorece a aprendizagem de formas, símbolos e línguas, ajuda a fixar conceitos e auxilia na expressão de pensamentos e ideias. Trata-se de um ato motor capaz de provocar ativações cerebrais importantes.
A escrita manual amplia ainda a capacidade da memória de trabalho (SPRENGER, 2008), que nos permite reter a informação nova enquanto nosso cérebro busca, na memória de longo prazo, padrões ou conexões para reconhecer esse estímulo e vinculá-lo a algo já conhecido, tecendo, de fato, a aprendizagem e permitindo a solução de problemas. É a memória de trabalho que interpreta, por exemplo, um desafio e busca, da memória de longo prazo, as informações e a operação adequada para resolvê-lo, elaborando uma resposta a partir da síntese entre informações novas e conhecimento antigo (LEVINE, 2003; FONSECA, 2008). A escrita manual, portanto, é capaz de desenvolver no cérebro a capacidade de realizar tarefas cognitivas mais complexas, o que não se observa na mera digitação.
Diante da possibilidade de dificuldades no desenvolvimento de processos cognitivos por falta de exposição a situações de escrita manual que o favorecem, que efeitos isso teria no surgimento de outras habilidades e na aprendizagem global? Sabe-se que a interpretação e solução de problemas em diversas áreas de conhecimento, a realização de cálculos e muitos outros conteúdos acadêmicos e escolares dependem de outras habilidades e componentes cognitivos: pleno domínio da função simbólica, uso da memória de trabalho, noções de lateralidade bem-estabelecidas para ordenar procedimentos sequenciais, entre tantos outros (FONSECA, 2009). Em que medida seriam esses processos cognitivos afetados pela ausência das habilidades mencionadas?
Experiências anteriores que suprimiram o “fazer” para privilegiar o “utilizar” não obtiveram o sucesso esperado. Um exemplo claro foi a suposição de que, diante da tecnologia atual, a realização de algoritmos e cálculos é uma habilidade desnecessária. Afinal, as calculadoras encontram-se presentes inclusive em celulares, portados hoje por crianças de sete ou oito anos de centros urbanos. Baseados nisso, alguns sistemas de ensino elaboraram materiais didáticos que desvinculavam o ensino de Matemática da aprendizagem de algoritmos e focaram apenas na interpretação e solução de problemas por meio de calculadoras. Os resultados, no entanto, mostraram que as crianças não expostas a esse tipo de instrução tiveram o desenvolvimento de conceitos e estruturas do pensamento lógico prejudicados, impedindo o bom desempenho na solução de problemas.
As questões práticas relacionadas à sala de aula também exigem cuidadosa reflexão. Sabe-se que, embora importante no período de alfabetização (FERREIRO; TEBEROSKY, 1999), o uso da letra-bastão (ou de forma) além desse período introdutório torna a escrita mais lenta. A escrita cursiva, devido à ligação entre as letras, permite fluidez e velocidade ao registro gráfico. O prejuízo no uso do tempo em aula poderia tornar-se considerável. O problema de velocidade e, portanto, do aproveitamento da aula, solucionado pela digitação em computadores, segundo a proposta americana, depende de condições econômicas “ideais”: a disponibilização de um computador por aluno para anotações em sala de aula e para consulta e realização de tarefas em casa. Essas condições “ideais”, talvez possíveis naquela sociedade, estão claramente distantes da realidade educacional brasileira.
A perspectiva desenvolvimental, portanto, sugere cautela na supressão do ensino de habilidades, entre os quais a escrita manual cursiva. Pesquisas seriam de fundamental importância na definição do impacto do uso de teclados em detrimento do manuscrito, para nortear a ampla aplicação da medida ou seu abandono.
Negligência em pesquisas
A decisão tomada pelo estado de Indiana, já alardeada pela mídia, revela a gravidade de uma questão muito apropriada à área de educação, provavelmente maior que a própria questão da escrita: a implantação de medidas sem pesquisas de médio prazo que a respaldem. O setor educacional, de fundamental importância para o desenvolvimento de qualquer país, tende a implantar medidas, métodos e alterações curriculares por razões meramente filosóficas, sem realizar pesquisas científicas ou considerar o resultado das já existentes (BOUNDS, 2010).
Em outras áreas do conhecimento, entre as quais as indústrias de alimentos e farmacêutica, a implantação de medidas só seria autorizada depois da aplicação da proposta a um grupo experimental por um período razoável e sua comparação com um grupo de controle nas mesmas condições, a fim de verificar o desenvolvimento dos componentes cognitivos já apresentados. Apenas após um estudo realmente aprofundado seria possível determinar o impacto educacional e desenvolvimental dessa medida e indicar sua implantação.
Referências bibliográficas
BARRUCHO, Luís Guilherme. A mão ativa o cérebro. Veja, São Paulo, ed. 2.227, ano 44, n. 30, p. 94 e 95, 27 jul. 2011.
BOUNDS, Gwendolyn. How handwriting trains the brain. 5 out. 2010. Disponível em:
<http://online.wsj.com/article_email/SB10001424052748704631504575531932754922518-lMyQjAxMTAwMDAwNDEwNDQyWj.html >. Acesso em: 13 set. 2011.
FERREIRO, Emília; TEBEROSKY, Ana. Psicogênese da língua escrita. Porto Alegre: Artmed, 1999.
FONSECA, Vitor da. Cognição, neuropsicologia e aprendizagem: abordagem neuropsicológica e psicopedagógica. 4. ed. Petrópolis: Vozes, 2009.
_____. Desenvolvimento psicomotor e aprendizagem. Porto Alegre: Artmed, 2008.
GAZETA, Sônia Maria. In: TIMM, Alberto Ronald (Ed.). A colportagem adventista no Brasil: uma breve história. Engenheiro Coelho: Imprensa Universitária Adventista, 2000.
LEVINE, Mel. Educação individualizada: motivação e desenvolvimento sob medida para seu filho. Rio de Janeiro, Campus, 2003.
SPRENGER, Marilee. Memória – como ensinar para o aluno lembrar. Porto Alegre: Artmed, 2008.
Andre Rocha
#1Hoje em dia todos nós temos nos preocupados muito com questões, como: O quê fazer com o meu filho em relação as novas tecnologias ?, Será, que meu filho estará preparado para o novo mundo ? Será que isso vai desaparecer, será que aquilo vai tomar o lugar disso? Temos vivido e pautado a educação de nossos filhos, para o imediatismo das novas tecnologias, como se o saber e o conhecimento existi-se, apenas, nessa esfera da vida deles. sinto que as vezes, nós adultos, sejam, pais, educadores ou outros agentes sociais, levamos as futuras gerações a esse estado de estresse e frenesi em busca do novo. Nós temos deixado de lado o verdadeiro valor da educação,que é a convivência harmônica entre as diferenças, o aprender com o passado, afim de construir um novo futuro.Decidimos que não é mais importante ensinar a letra cursiva, só que esquecemos de perguntar para as nossas crianças , se verdadeiramente elas estão contentes em escreverem apenas, por digitação, ou se, esta tem sido a forma como nós os temos ensinados. Posso, relatar que nem sempre a web e as ultimas novidades tecnológicas, são o mais importante para as crianças. Um dia desses recebi de um amigo um jogo pedagógico, o segredo dos montes, ele comprou no site de mesmo nome, e me presenteou, achei estranho ganhar um game-book, algo parecido como jogo de tabuleiro e livros infantis. Porém ele disse que era para eu brincar com os meus filhos, levei o material para casa, mais um brinquedo que ficaria na prateleira ,juntamente com os outros, por causa do vídeo game. Propus aos meninos brincarmos com o game-book. qual foi a minha surpresa, ver que meus filhos largaram o vídeo game e ficaram mais de duas horas brincando e jogando comigo. Pude sentir naquele momento que muito mais do que informações, meus filhos precisavam de conhecimento. conhecimento este que apenas pais e professores , podem dar, por que retratam uma coisa chamada experiencia.. Então eu digo que as gerações Z, Y, W, e quantas surgirem estaram conectadas as novidades, porém, ainda necessitam estar conectadas aos adultos.
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