Meus alunos sabem mais do que eu
| Por Maximiliana Batista Ferraz dos Santos
(Imagem: Shutterstock)
Mas havia descoberto que, se o programa estivesse ligado, ela poderia chamar a vovó e “teclar” alguma coisa para ela ver lá do outro lado.
Carolina faz parte da “geração internet”, segundo Tapscott (2010). Já para Marc Prensky (2005), ela é uma “nativa digital”, pois nasceu conectada e com um computador ao alcance das mãos. Segundo os autores, as crianças, adolescentes e jovens que nasceram depois da popularização do computador pessoal e da internet se relacionam com celulares, smartphones, tablets, laptops, webcams, internet sem fio, etc. como algo natural, pois essas tecnologias fazem parte de seu dia a dia. Por isso, o processo de aprendizagem dessas tecnologias ocorre de forma espontânea, como na aprendizagem de uma língua materna.
Quem já não viu uma criança sentar-se defronte de um computador e, sem muitos ensaios, começar a desenhar, jogar, brincar e navegar na internet? Os vídeos a seguir mostram duas crianças que “decifraram o código de uso” de um iPad e de um iPhone.
Esses vídeos ilustram a capacidade de aprender a usar computadores e a internet de forma natural. Tal característica, se comparada à familiarização tecnológica das gerações anteriores, poderá explicar por que nossos alunos aprendem a usar tecnologia tão mais rápido do que nós. Tapscott (2010, p. 29) explica que “enquanto as crianças da geração internet assimilaram a tecnologia porque cresceram com ela, nós, como adultos, tivemos que nos adaptar a ela – um tipo muito diferente e muito mais difícil de processo de aprendizagem.”
Tapscott e Prensky afirmam também que os integrantes dessa geração estão revolucionando a sociedade, pois pensam, relacionam-se, aprendem e trabalham de forma diferente. Tais mudanças, alegam eles, estão gerando novas formas de comércio, comunicação, relacionamento, gerenciamento da sociedade. Trata-se de uma questão muito importante a se considerar, pois tem repercussões diretas sobre o cotidiano escolar. Mas gostaria de chamar a atenção do leitor para o fato de que essas opiniões são também bastante enfáticas e deterministas. Não temos certeza ainda se são exageradas ou não. Então, cabe a nós avaliar essa questão com critério, sem nos render placidamente aos modismos comerciais e teóricos, fundamentando-nos em princípios sólidos de uma verdadeira educação integral baseada na Bíblia, para então oferecermos o melhor ensino, adequado à atual conjuntura histórica.
É importante lembrar que as mudanças comportamentais mencionadas podem ser sentidas em nossos alunos em tempos e estágios diferentes, uma vez que nem todos eles têm acesso aos mesmos recursos ao mesmo tempo. Mas isso não nos exime de ficar atentos às mudanças.
Para continuarmos nossa análise, trago alguns números que poderão nos ajudar a caracterizar a geração internet. Tais dados são resultantes de uma pesquisa encomendada pela Fundação Telefônica à Universidade de Navarra, na Espanha, que buscou definir o perfil dos usuários de internet da faixa etária de 6 a 18 anos de sete países da América Latina: Argentina, Brasil, Chile, Colômbia, México, Peru e Venezuela. Foram entrevistadas no Brasil 4.205 pessoas e ao todo 25.467. O estudo foi realizado entre 2007 e 2008.
Entre os sete países pesquisados, o Brasil destaca-se como o de maior tempo de uso semanal da internet. Também é o país onde há o maior número de crianças e adolescentes com acesso à internet em seus quartos - 38% das crianças e 44% dos adolescentes entrevistados -, fator que contribui para o aumento do tempo e das possibilidades de uso da internet.
Os brasileirinhos e brasileirinhas também se destacaram no uso de serviços de comunicação: 72% deles afirmaram que gostam de usar o Messenger para conversar com seus amigos e 50% afirmaram que sempre que podem se conectam a esse serviço. E vejam que dado importante: um em cada dois adolescentes conheceu pessoalmente algum de seus amigos virtuais. Preocupante? Na minha opinião, sim! Precisamos alertar nossos alunos e seus responsáveis sobre os riscos desse comportamento.
(Se você gostou dos dados dessa pesquisa, acesse o relatório completo .)
Gostaria de mostrar mais um índice. Veja a seguir um gráfico de uso do Orkut.
(Imagem: )
Dados acessados em 11/04/2011.
Podemos constatar que o Brasil é o país que mais usa essa rede social no mundo. Verificamos também que a faixa etária dos principais usuários do Orkut é de 18 a 25 anos. Aparentemente tal faixa etária não se enquadra no ensino fundamental e médio regulares. Mas, se lembrarmos que muitos de nossos alunos menores de 18 anos têm página no Orkut, poderemos concluir que tal índice refere-se a eles também.
Depois dos números e afirmações apresentados, que nos remetem à necessidade de repensar nossas práticas em sala de aula, resta-nos ainda responder à questão: O que fazer se seus alunos entendem de computação mais do que você?
O primeiro passo é não se afrontar com isso, e o segundo é saber gerenciar o potencial da molecada. Lembre que o paradigma de que o professor tem a obrigação de saber tudo o tempo todo já foi questionado. Cabe ao docente orientar o potencial dos alunos e aprender com eles também.
Nossos alunos podem ser nossos colaboradores. Podemos e devemos usar os conhecimentos deles em favor da aprendizagem da turma. Para ilustrar tal ideia, gostaria de citar o projeto “Aluno monitor”, da Microsoft. Nesse projeto, os jovens participam de cursos que os habilitam a se tornar monitores ou auxiliares de informática em suas escolas ou comunidades. Atuam apoiando docentes com o que já sabem. Confira mais detalhes .
Transportando essa ideia para nossas salas de aula, podemos chegar ao seguinte conceito: nossos alunos podem se tornar auxiliares nas aulas que realizarmos no laboratório ou em sala. Proponho que você faça uma escala de forma a engajar todos os que desejarem ser ajudantes por um dia, mesmo que sejam alunos pequenos. Essa estratégia já vem sendo utilizada por muitos professores em outras áreas. Quem já não ouviu falar do ajudante do dia? Trata-se do mesmo conceito. Você, professor ou responsável pelo laboratório de informática, poderá promover:
- oficinas no contraturno para outras turmas aliando os conteúdos programáticos à aprendizagem de um software ou serviço web;
- aulas especiais sobre alguma tarefa específica como: edição de textos; planilhas eletrônicas; criação de blogs; postagens em blogs; confecção de cartazes, convites, álbum de fotos; etc.;
- apresentações de trabalhos nas quais os alunos explicarão o conteúdo solicitado e como realizaram as produções (apresentações em PowerPoint, vídeos, blogs, planilhas eletrônicas, etc.).
Nossos alunos aprendem rápido a usar as novas tecnologias, e nós sabemos como motivá-los e como orientar seus talentos e potencialidades. E ao entender melhor como funciona esse aprendizado, nós podemos ganhar mais e mais confiança para aprender também como funcionam as máquinas.Enfim, todos podem ganhar nesse contexto, ainda que as habilidades e os conhecimentos não sejam exatamente os mesmos.
Para saber mais
A GERAÇÃO interativa na Ibero-américa: crianças e adolescentes diante das telas. Coordenação de Xavier Bringué Sala e Charo Sádaba Chalezquer. Desenvolvido pela Universidade de Navarra.
Disponível em: <http://www.educarede.org.br/educa/arquivos/web/biblioteca/LivroGGII_Port.pdf >. Acesso em 26 abr. 2011.
ALUNO MONITOR. Microsoft. Disponível em: <http://www.alunomonitor.com.br/ >. Acesso em 26 abr. 2011.
IPAD. Apple. Disponível em: <http://www.apple.com/br/ipad/ >. Acesso em 26 abr. 2011.
IPAD. Wikipédia. Disponível em: <http://pt.wikipedia.org/wiki/IPad >. Acesso em 26 abr. 2011.
IPHONE. Apple. Disponível em: <http://www.apple.com/br/iphone/ >. Acesso em 26 abr. 2011.
IPHONE. Wikipédia. Disponível em: <http://pt.wikipedia.org/wiki/IPhone >. Acesso em 26 abr. 2011.
MARK Prensky. Mark Prensky. Disponível em: <http://www.marcprensky.com >. Acesso em 26 abr. 2011.
PRENSKY, Marc. Nativos digitais e imigrantes digitais. Disponível em: <http://depiraju.edunet.sp.gov.br/nucleotec/documentos/Texto_1_Nativos_Digitais_Imigrantes_Digitais.pdf >. Acesso em 26 abr. 2011.
QUEM é a geração Y? UOL Olhar digital. 10 abr. 2011. Disponível em: <http://olhardigital.uol.com.br/jovem/central_de_videos/quem_e_a_geracao_y >. Acesso em 26 abr. 2011.
TAPSCOTT, Don. A hora da geração digital: como os jovens que cresceram usando a internet estão mudando tudo, das empresas aos governos. Rio de Janeiro: Agir Negócios, 2010.
1Nome fictício.
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