A Geração Z e o desenvolvimento da leitura
| Por Lilian Larroca
(Imagem: Shutterstock)
A consequência, no âmbito social, não poderia ser outra - o Brasil tem uma fama terrível, inclusive internacionalmente, no que se refere ao hábito de leitura de seus habitantes. Estima-se que o brasileiro médio leia 1,8 livros não acadêmicos por ano, garantindo ao país o 27º lugar em uma pesquisa relacionada ao tema, realizada em 30 países. A proporção de livros anuais “per capita” poderia ser justificada por questões de ordem econômica, não fossem outros dados que mostram a teledensidade, por exemplo. No Brasil, existem 106,91 linhas de telefone celular para cada grupo de 100 habitantes, e o total de aparelhos atingiu 207,5 milhões em fevereiro de 2011 . Caso a pesquisa fosse estendida a outros produtos tecnológicos, a diferença seria igualmente perceptível – enquanto o consumo de livros cai, o de novidades eletrônicas cresce rapidamente. Não se trata, portanto, de uma limitação econômica, ao menos em algumas regiões brasileiras, mas uma questão de prioridades.
Essa experiência, de dimensão social, pode ser aplicada de forma bastante específica às crianças de hoje, tanto no aspecto do tempo de introdução à tecnologia quanto em sua priorização. Os alunos que ocupam as carteiras escolares hoje, principalmente nos grandes centros urbanos, são nativos digitais. Desde seu nascimento, foram cercados de estímulos tecnológicos, entre os quais costumam zapear, ou seja, alternar sua atenção entre a utilização de televisão, internet, video game, telefones, mp3, 4, 5, 9..., players, e outras tantas novidades eletrônicas que surgem a cada dia, quando não os utilizam simultaneamente. O zapear tornou-se o símbolo e inspirou o nome desta geração – a Geração Z. Seu vocabulário, desde cedo, inclui palavras de origem estrangeira, presentes no conteúdo televisivo, jogos de videogame e manipulação de equipamentos digitais . Entretanto, a leitura, propriamente dita, é lhes apresentada num ponto posterior da vida – o ingresso na pré-escola. Novamente, a experiência eletrônica antes da experiência escrita – a experiência individual refletindo a experiência social.
Como se pode imaginar, diante de tantos estímulos eletrônicos, coloridos, lúdicos e, às vezes, interativos torna-se um desafio desenvolver o gosto e o prazer da leitura. Entretanto, isso não a torna menos necessária. A geração que recebe informação de muitas formas tem, com certa frequência, dificuldade para concentrar-se nela o tempo suficiente para interpretá-la, analisá-la criticamente e mesmo para selecionar o relevante. Portanto, apesar de “fora de moda”, a leitura deve ser incentivada pela família e pela escola.
Como, então, incentivar a leitura em uma geração cibernética?
Os primeiros passos para a formação de leitores dependem da vivência e do exemplo familiar. Em um lar em que os livros estão disponíveis desde cedo e, ainda mais do que isso, o ato de ler é protagonizado pelos pais e presenciado pelos filhos, o livro torna-se objeto de curiosidade e interesse da criança que, desde a primeira infância, sente-se familiarizada com ele. Além desse estímulo obtido através do exemplo, a leitura pode adquirir, na família, uma conotação emocional quando os pais lêem para os filhos, transformando este momento um oásis de aconchego e ternura. Forma-se, desta maneira, o primeiro vínculo de interesse entre criança e o livro, que despertará nela a associação entre a leitura e o prazer.
Às famílias, portanto, podem ser feitas algumas recomendações para a formação de crianças leitoras:
1. Inicie a leitura ainda para o bebê, de preferência diariamente: Mesmo que não tenha ainda o vocabulário necessário para a compreensão de uma história, o bebê não apenas entende muito da leitura, como se agrada em ouvir a voz humana. Ele aprecia os sons que não conhecia a “melodia” da fala do adulto e, principalmente, a possibilidade e interação. Repita as histórias lidas muitas e muitas vezes, pois além de despertar a atenção do bebê, este ato contribui para a formação de seu vocabulário.
2. Ofereça livros apropriados à idade: Quanto menor a criança, mais figuras e menos texto deve conter o livro. A proporção deve mudar gradualmente. Para as crianças muito pequenas, existem livros de materiais mais resistentes, que permitem o manuseio com poucos danos. Existem ainda livros interessantes, que emitem sons ou com figuras tipo pop-up, que chamam a atenção e encantam o olhar.
3. Explore os assuntos preferidos: Na medida em que a criança cresce, ela passa a demonstrar interesse por diferentes assuntos. Normalmente, cada fase tem o seu “tema predileto”. Como mãe de menino, já vi seu interesse variar entre dinossauros, carros, animais, esportes... Aproveite a fase e ofereça materiais (livros ou pequenas reportagens) sobre o tema predileto, e desperte o interesse pela leitura!
4. Use “porções pequenas” e partilhe a leitura: Quando a criança começa a ler sozinha, é importante não sobrecarregá-la com textos muito extensos. Os livros apropriados para essa faixa etária contêm muitas figuras e frases curtas em cada página. Além disso, ela se sentirá mais interessada com a leitura partilhada: ela lê uma página, e o pai/mãe lê outra. Este método costuma gerar bons resultados.
5. Restrinja atividades eletrônicas como computador, televisão, etc.: Será difícil incentivar o hábito de leitura se a criança passar boa parte de seu dia entretida por meios eletrônicos. A tecnologia está presente em nosso mundo e deve ser usada, porém com sabedoria. Além de ser uma atividade sedentária, a distração eletrônica embota a imaginação da criança, que passa a ter dificuldade de visualizar/imaginar histórias lidas por obtê-las sempre de forma “mastigada” através desses meios. Portanto, restrinja essas atividades e aposte na leitura.
6. Dê o exemplo – leia! O famoso “faça o que eu mando, e não o que eu faço” é ineficiente em todas as áreas da vida, e com a leitura a realidade não é diferente. Seja um leitor e, caso não goste de ler, comece aos pouquinhos, aumentando a dose a cada dia. Seu incentivo só será efetivo se for acompanhado de seu exemplo.
Conclui-se, portanto, que a leitura, embora necessária à formação de uma importante base de conhecimentos, bem como ao desenvolvimento cognitivo da Geração Z, só será, realmente um hábito, quando conseguirmos associá-la, desde os primeiros anos de vida, a uma vivência emocional gratificante. Este é um dos grandes desafios educacionais da família atual.
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