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Educação além das notas

Quando Ivan chegou para ser entrevistado para esta reportagem, parecia nervoso.  O adolescente de 15 anos apertava os dedos contra a palma da mão com força enquanto me pedia calma para responder cada pergunta. Ele queria pensar bem no que ia dizer, pois estava levando a sério a responsabilidade de falar em nome de sua escola. Aos poucos, começou a falar de seus compositores favoritos e do sonho de ser como um deles. “Para isso, é preciso muito esforço!  Por isso, toco desde os seis anos e treino pelo menos três horas por dia. Mas um pianista profissional treina de seis a oito horas diárias”, justifica.

Essas palavras saíram com a naturalidade de quem sonha em ser grande. E foi aí que entendi. No instrumento, ele se sentiria mais confortável. Bem atrás de nós havia um lindo piano de cauda. Pedi que se sentasse e tocasse. Foi então que a música dele nos tocou.

Por que a música tem o poder de nos fazer refletir e marejar os olhos? “Não há poder próprio na música, mas ela mexe conosco porque somos seres musicais, assim como nosso Criador”, explica o músico e pastor Társis Iraídes, membro do quarteto Arautos do Rei, um dos grupos evangélicos mais tradicionais do Brasil. Társis completa dizendo que a música é uma linguagem que gera impacto de diferentes formas em cada ser humano e que, por seu caráter universal, se manifesta de maneira peculiar em cada cultura.

 

DESDE O VENTRE

A música tem grande influência sobre os seres humanos, mesmo antes do nascimento. No útero materno, o bebê já consegue ouvir sons. “Lógico que os sons são um pouco distorcidos, por causa do líquido que envolve o feto, mas quando nasce, a criança já consegue reconhecer a voz do pai, da mãe e de pessoas próximas”, confirma Dione Lanza, professora e mestre em Música.

Para tirar a prova dos nove, Marla Lüdtke procurou aplicar com o filho Bernardo o que aprendeu no mestrado em musicalização infantil. “Comecei a cantar para o Bernardo quando ele ainda estava na minha barriga. Depois que nasceu, passei a incluir música na rotina, e costumo cantar movimentando as perninhas e bracinhos dele no ritmo da canção. Isso ajuda na percepção musical”, descreve a cantora que, com o esposo e pastor Daniel Lüdtke, tem se dedicado à produção de DVDs musicais infantis como Minha Vida É Uma Viagem, da gravadora Novo Tempo.

Esse estímulo precoce que Marla oferece ao filho é recomendado pelos educadores. No Brasil, aulas de musicalização infantil podem ser iniciadas já aos seis meses de vida. É um momento lúdico, que envolve instrumentos de percussão, movimentos corporais e a interação entre os pais e o bebê. “Acreditamos que quanto mais cedo a criança começa, mais ela pode se desenvolver. Com os pequenos é usado instrumento xilofone, em que cada nota é representada por uma barrinha colorida. Assim, cantamos os ritmos ditando as notas, até que eles relacionem cada nota com a cor equivalente e a barrinha se torne dispensável”, detalha Érick Gimenez, doutor em Música e diretor do conservatório da Universidade Peruana Unión (UPeU), instituição adventista referência em musicalização infantil.

 

DISCIPLINA E OPORTUNIDADES

Ivan Pereira, o personagem do começo desta reportagem, é um desses que começou a treinar bem cedo e que assumiu o desafio de tocar outros instrumentos. “Além do piano, toco violino na orquestra do colégio”, relata. O adolescente cursa o Ensino Médio no Instituto Adventista Paranaense, internato próximo a Maringá (PR). Foi lá que ele fez boas amizades com adolescentes que também gostam de música e onde encontrou oportunidades de exercitar sua habilidade no conservatório, orquestra, banda e coral de sinos.

Kaleo Milanelli é um dos amigos de Ivan que está no coral de sinos. O garoto de 16 anos aproveita ao máximo o conservatório da instituição. Ele toca piano, violão, trombone, violoncelo e os sinos. Para o professor Delmar Freire, mestre em Música e maestro da orquestra da UPeU, a super-habilidade artística de Kaleo e de outros é fácil de ser identificada, mas difícil de ser definida. Ele exemplifica dizendo que algumas crianças de cinco anos se desenvolvem tão rapidamente que até mesmo superam seus professores. E acrescenta: quem é bom num instrumento consegue aprender com mais facilidade outro. “Um dos casos mais conhecidos da história é Mozart. Ele era um exímio pianista, mas também tocava violino divinamente”, destaca.

Delmar relata que a dinâmica do conservatório é diferente da orquestra. “Na orquestra é preciso ser mais profissional. O aluno vem para o conservatório a fim de aprender. Na orquestra, ele já precisa saber. Ele passa por uma seleção que exige conhecimento de partitura e disciplina para cumprir com a rotina de estudos. Só temos um ensaio geral por semana aqui na universidade, os demais são por grupos de instrumentos, como os de sopro e de cordas”, enfatiza o músico a importância da responsabilidade individual para que o resultado coletivo seja satisfatório.

No Peru existe uma boa tradição musical. Prova disso é que o ensino da música não se restringe às universidades. No Colégio Adventista de Puno, no extremo sul do país, os alunos do Ensino Fundamental levam muito a sério o aprendizado de música. David Apaza, regente da orquestra de câmara da escola, conta que o grupo de cordas que ele dirige, ensaia todas as sextas-feiras, e os instrumentistas precisam dedicar duas horas diárias de treino. “Começamos com esse projeto há dois anos e, hoje, somos convidados para os eventos da região, pois as pessoas se impressionam que alunos de 7 a 15 anos toquem tão bem”, ressalta Apaza.

Nessa modalidade de orquestra estão presentes os 1º e 2º violinos, violas, violoncelos e contrabaixos. Abel Jilaja, de apenas 11 anos, é o primeiro concertino da orquestra, e explica sua função: “Sou aquele que guia a orquestra na ausência do maestro. É uma grande responsabilidade”.

 

BANDAS E CORAIS

Participar de um coral ou banda na escola representa mais do que uma experiência artística, é sobretudo fazer amigos e desenvolver trabalho em equipe. E o mais interessante dessa união de vozes ou sons é que, necessariamente, não é preciso ter experiência prévia. No Instituto Adventista de Santa Catarina (Iaesc), internato na região de Joinville (SC), a banda é recente, e boa parte dos alunos não tinha experiência anterior. “Estar na banda é uma oportunidade de adquirir responsabilidade e disciplina. E os alunos gostam de representar o colégio nas atividades cívicas”, pontua Ricardo Nascimento, maestro da banda.

A tradição das bandas escolares também está presente nos países vizinhos sul-americanos. O Peru se destaca nessa modalidade. O Colégio Adventista de Cusco, na região de Machu Picchu, por exemplo, é destaque nacional no concurso anual de bandas e fanfarras. “Nós participamos todos os anos e, em 2016, chegamos às finais nacionais. Fomos até Lima, capital, e conquistamos a medalha de bronze”, conta Daniana Cabrera, aluna que aprendeu a tocar flautim na própria escola.

Outro tipo de grupo musical que costuma chamar a atenção, especialmente nos internatos, é o coral. No Instituto Adventista Cruzeiro do Sul (Iacs), localizado na serra gaúcha, os alunos são literalmente “fãs” do grupo vocal que existe desde 1995. Ana Maria Macêdo, regente do coral do Iacs, relata que a proposta é ter um figurino mais leve e um repertório que seja ao mesmo tempo alegre e que considere as características vocais de uma faixa etária que ainda está passando por transformações. “Tudo isso faz com que eles encarem coral como uma atividade divertida e prazerosa”, analisa Ana, revelando o segredo do sucesso do grupo.

O coral, que já gravou CDs e DVDs, realiza turnês anuais pelo Brasil, prática comum entre os grupos musicais dos internatos adventistas, e uma das experiências mais aguardadas pelos coristas, Juliana Catafesta, aluna do 3º ano do Ensino Médio, define o coral como sua atividade preferida no internato. “Sou de Guaíba (RS) e nunca pensei em estudar aqui em Taquara, até o dia em que vi o coral cantar na igreja do Iacs. Fiquei apaixonada! Foi isso que me motivou a vir para cá e sou muito feliz por poder cantar com meus amigos. Adoro as viagens do coral e, se hoje consigo me expressar melhor e vencer minha timidez, devo muito ao grupo”, reconhece a estudante.

 

MÚSICA COMO PROFISSÃO

E, para os que se identificam tanto com a música a ponto de fazerem da carreira uma canção, a rede educacional adventista também oferece formação profissional nessa área. Quem escolhe esse caminho, porém, precisa saber que música não é só festa. Um bom profissional é fruto de muita dedicação às aulas práticas e teóricas. O que não foi um empecilho para Flávia Maximiliano. Um sonho de infância levou Flávia a se matricular no Unasp, campus Engenheiro Coelho. “Desde criança, sempre gostei de cantar. Vim para o Unasp movida por esse sonho e aqui acabei me apaixonando ainda mais pela carreira. Hoje, além de cantar profissionalmente, digo que me encontrei na musicalização infantil, e quero trabalhar nesse segmento”, conta a universitária, que está no último ano de sua formação.

O curso de licenciatura em Música do Unasp, inclusive, lidera o ranking do Ministério da Educação nessa área. “Isso nos dá um ânimo ainda maior para trabalhar. Nosso curso tem quatro anos de duração, cujo objetivo é formar músicos diferenciados que, além de excelência técnica, apresentem compromisso com valores cristãos”, enfatiza a professora Ellen Stencel, coordenadora do curso.

 

DEDICAÇÃO A DEUS

Por fim, existem aqueles que encontram na música uma linguagem para expressar sua gratidão ao Criador e ligar corações que precisam ser reconciliados com Deus. É isso que o aluno Lucas Meireles, do Colégio Adventista de Porto Velho (RO), tem feito. O adolescente de 17 anos já compôs mais de 50 músicas nos últimos dois anos, repertório que é interpretado pelo coral da escola dele. “Fico muito feliz em saber que essa mensagem pode alcançar não apenas os alunos que estão cantando essas letras, mas as pessoas que assistem às apresentações”, compartilha.

Consciente da responsabilidade que tem, Lucas explica de onde vem sua inspiração. “Antes de tudo, é preciso estar em conexão com o sagrado, porque a música é um canal de influência muito forte. Por isso, ao compor, preciso estar em oração e conhecer bem a Bíblia, para poder transmitir por meio da música uma mensagem que transforma.”

 

 

Imagem: Davizro Photography/Fotolia
Fonte: Revista Conexão 2.0 – 3º trimestre/2017. Autoria: Rebbeca Ricarte
Rebbeca Ricarte
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