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Como lidar com o aluno pós-moderno?

Não pretendemos ditar regras; afinal, cada pessoa tem sua individualidade, o que pode levar cem pessoas a se comportarem de cem maneiras diferentes diante de um mesmo problema. Além disso, essas dicas não visam “ensinar” educadores experientes a lidar com seus estudantes; elas são um “testemunho compartilhado” de como outros professores de Ensino Religioso têm resolvido problemas que são, de certo modo, generalizados nas escolas de hoje. Se você estiver iniciando como professor, encare as observações a seguir como sugestões proveitosas daqueles que já empreenderam a difícil dinâmica de transformar a teoria em prática do dia a dia.

 

NÃO APELE PARA MITOS

Quem pertence ou já pertenceu a alguma denominação religiosa de caráter fundamentalista certamente ouviu diversas explicações mitológicas da realidade. São contos do tipo: “Fulano xingou o nome ‘desgraça’, e o demônio apareceu para ele”; “O sacerdote excomungou sicrano, que foi imediatamente engolido pelo chão”. O excesso de tais mitos demonstra que sua pretensão vai além das particularidades do folclore ou da cultura popular: ele espelha um costume medieval, usado pelos religiosos daquela época para reprimir o povo por meio do medo e da crendice alienadora.

Como diz a sabedoria popular, “quem conta um conto aumenta um ponto”, assim, com o passar do tempo, novas lendas foram surgindo, dando lugar a uma paisagem de medos e mitos. A religião sem fundamento, é claro, apreciava tal ambiente, uma vez que, por meio dele, podia impor-se sem ser incomodada por qualquer questionamento racional. Atualmente, em algumas regiões rurais e empobrecidas, ainda encontramos esses “causos” contados por idosos e pessoas menos esclarecidas. No ambiente acadêmico e metropolitano, porém, os estudantes desde cedo aprendem a não mais dar ouvidos a esse tipo de relato, visto que o mito já não explica a realidade.

Por essa razão, não censure o cinema com base na ideia de que “o anjo da guarda jamais entra ali”. Também não incentive a pontualidade apelando para o argumento de que “o anjo do relógio divino dá a bênção apenas aos que chegam pontualmente às reuniões da igreja”. É preciso usar argumentos condizentes com a razão, pois, do contrário, as corretas conclusões doutrinárias poderão ser consideradas mentiras sem qualquer fundamento.

 

NÃO FAÇA SENSACIONALISMO SOBRE O FIM DO MUNDO

Um senso mitológico prevalece em muitos religiosos ao descreverem com entusiasmo os chamados eventos finais. Não que isso seja inteiramente errado; pelo contrário, todos deveríamos alertar o mundo acerca do tempo profético em que vivemos. O problema é que algumas pessoas são ávidas em mencionar “fatos” que nunca foram verificados e que, na maioria das vezes, não são verdadeiros. Elas apenas os ouviram de alguma fonte – quase sempre não autorizada – e, empolgadas, divulgam o conteúdo, sem jamais consultar a procedência daquilo que lhes foi dito.

Nesse conjunto de “criatividades”, já se ouviu de tudo ou quase tudo. Um exemplo: há quem diga que a marca da besta do Apocalipse está expressa em uma caixa de biscoitos, cujo código de barra traz o número 666. Diante desse exemplo, qualquer pessoa mais esclarecida poderá pedir ao palestrante as “provas” daquilo que está afirmando e, como ele não as tem, a boa doutrina pode cair em descrédito. Portanto, é preciso cautela.

Antes de dar ouvidos a qualquer novidade sobre a conspiração mundial ou leis de restrição à liberdade religiosa, é preciso assegurar-se da fonte da informação e de suas evidências. Em alguns casos, se preciso, consulte um órgão religioso oficial e não meça esforços na busca pela verdade. Se ainda não tiver certeza do que foi dito, não transmita aquele conteúdo aos alunos.

 

NÃO APELE PARA TEORIAS INFUNDADAS

Caso você não conheça um assunto sobre o qual os alunos tenham dúvidas, é melhor admitir a eles que você não sabe. Certamente, eles não irão desmerecê-lo por preferir pesquisar um tema antes de pronunciar-se a respeito. Se, por orgulho, você posicionar-se sobre determinado assunto que não conhece, poderá emitir conceitos que irão denegrir sua imagem frente aos estudantes.

Desse modo, diante da dúvida, procure estudar ou conversar com quem possa ajudá-lo. Dependendo da situação, pode ser proveitoso levar um especialista para explicar determinados temas em sala de aula. Essa prática gerará respeito pelo que você falar, pois os estudantes perceberão que o professor de Ensino Religioso não emitirá um conceito sem ter certeza do que está falando.

 

EVITE A FORMALIDADE EXCESSIVA

Observe o que está acontecendo com a forma de apresentação nos programas de rádio e TV. No passado, geralmente, os locutores de rádio tinham que ter vozes graves e incomuns. Com a chegada das emissoras FM, as vozes que mais fazem sucesso são as menos sóbrias, que conseguem criar mais intimidade entre o locutor e o ouvinte. O mesmo fenômeno se vê nos canais televisivos. Alguns apresentadores já estão abolindo o paletó e a gravata e estão usando uma linguagem mais informal na divulgação da notícia.

Atualmente, a chave da boa comunicação é falar para mil pessoas como se estivesse conversando com um ou dois amigos à mesa de uma pizzaria. É óbvio que não devemos copiar a banalidade de muitas conversas informais, nem usar gírias exageradas, a fim de atrair os jovens àquilo que estamos anunciando. As gírias frívolas não condizem com uma postura cristã e, muito menos, com a verbalização do cristianismo. Segundo a opinião coletada de vários grupos jovens, um adulto tentando falar as gírias de outra geração soa totalmente artificial. Entretanto, seria bom evitar o formalismo ao falar a adolescentes, seja na sala de aula, seja em outro ambiente.

Há um vocabulário arcaico que não comunica cultura, nem estabelece diálogo. O academicismo tem lugar próprio para ser empregado, como em momentos de erudição cultural. Por isso, se usado na linguagem diária, não atingirá o coração de um aluno pós-moderno.

 

NÃO SEJA O SENHOR “ACERTA TUDO”

A prática demonstra que os alunos admiram o professor que tem coragem de pedir perdão. Isso pode parecer estranho, mas decorre do fato de que muitos deles não foram acostumados a encarar o mestre como alguém que admite imperfeições. Ninguém cogita naturalmente que seu professor de Matemática erre um cálculo exigido em prova. No entanto, é interessante notar que, quando os alunos descobrem o lado humano daquele que ministra as aulas, isso lhes desperta simpatia e abre os laços para uma efetiva amizade.

Portanto, faça como Jesus: “encarne-se”. Sinta na pele o que o aluno está vivendo. Tente imaginar as pressões que ele enfrenta. Chore com ele, simpatize com sua dor e deixe os julgamentos para Deus. Mostre-lhe que você sabe o que ele está passando, porque, mesmo sem ter enfrentado esse tipo de problema, já encarou algo semelhante.

 

BUSQUE EM CONJUNTO COM A CLASSE A SOLUÇÃO DE PROBLEMAS

Dentro da sala de aula, você poderá ser confrontado com questionamentos sérios contra a Igreja, a religião ou o diretor do colégio. Não se assuste com essa situação, pois é parte do perfil do aluno pós-moderno criticar continuamente as autoridades. Em uma empresa, alguns funcionários tendem a protestar contra uma circular, antes mesmo de lê-la, só porque traz o timbre “diretoria”. Quando surgirem essas críticas, ouça-as até o fim. Não aja como muitos que, na pressa de defender a instituição, nem ouvem a opinião das outras pessoas.

Quando algo não puder ser completamente explicado ou for realmente errado, tome o devido cuidado de não estimular no aluno um espírito de rebeldia contra a liderança ou a religião. Procure desafiá-lo para, juntos, buscarem possíveis soluções para o problema levantado. Ensine-o a fazer aquilo que você mesmo já está praticando: olhar o lado do outro, entender seu procedimento e tentar (se preciso) corrigi-lo eficazmente.

 

INCENTIVE O QUESTIONAMENTO COM RESPONSABILIDADE

Não “bata de frente” com o espírito questionador dos alunos, mesmo porque você não poderá mudar essa postura à força. Procure tirar proveito dessa tendência. Incentive-os a questionar também os acontecimentos ao redor. Mostre-lhes como a TV, a mídia e as grandes empresas procuram sempre tirar a liberdade de escolha deles, ditando regras sobre a roupa que devem vestir, o alimento que devem comer e o programa a que devem assistir.

 

EQUILIBRE DOUTRINA E RELACIONAMENTO COM DEUS

No passado, a Igreja deu ênfase exagerada ao conteúdo doutrinário em detrimento da comunhão com Deus. Nas faculdades de Teologia, por exemplo, ensinavam-se métodos apologéticos de defesa da fé, nos quais um professor assumia o papel de oponente do aluno e simulava um debate em torno das Escrituras. A partir do desempenho do estudante em derrotar o oponente, era-lhe atribuída a nota em determinada matéria. Hoje, porém, os tempos mudaram, o que não significa exatamente uma melhora. Apenas alterou-se a posição do pêndulo de um para o outro extremo, uma vez que se tende a supervalorizar a fé em detrimento da sistematização da doutrina. Portanto, não enfatize demais a experiência a ponto de reduzir a importância da verdade bíblica.

Seu papel como professor consciente torna-se muito importante nessa época marcada pela perda da identidade confessional. A humanidade esvaziou-se em razão das decepções históricas com os sistemas organizados, especialmente os religiosos. Por isso, cada um resolveu criar seu próprio código de valores; consequentemente, torna-se um desafio falar em disposições doutrinárias que sejam coletivas, isto é, regras que valham para todos. A exacerbação sobre o indivíduo está levando as pessoas a servir de padrão para si mesmas e a seguir aquilo que reza a sua própria consciência. É provável que algum aluno tenda a forjar, sem nenhuma base, suas próprias convicções acerca do certo e errado, perdendo de vista a linha divisória entre o sagrado e o profano. Diante disso, é preciso que ele seja muito bem guiado para que não acabe adorando um deus próprio, inventado por sua mente e distanciado da revelação da Bíblia.

 

 

Autores de Ensino Religioso da Coleção InterAtiva e do Sistema Inter@tivo de Ensino.
Fonte: Revista CPB Educacional – 1º semestre 2017.
Imagem: igorp17 / Fotolia
CPB Educacional
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