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Aula que pode mudar essa equação

Suar é preciso. Seu professor de Educação Física sabe disso e pode ajudar você a tornar o exercício físico um hábito divertido e saudável.

No filme Click (2006), Adam Sandler vive Michael Newman, um arquiteto e pai de família que recebe um controle remoto com o poder de acelerar sua vida. Newman abusa do controle para “pular” momentos ruins e chegar logo ao sucesso. De repente, ele se vê bem-sucedido e rico, porém, divorciado, distante dos filhos, angustiado e terrivelmente obeso. A história de Newman é mais do que uma ficção. É a parábola de uma sociedade que sacrifica os valores mais importantes, como saúde e família, em troca de dinheiro e fama. Newman é um retrato da situação de muita gente hoje e do que você pode se tornar amanhã.

A realidade é que, no Brasil e no mundo ocidental, estilo de vida sedentário e antinatural faz com que a população se torne cada vez mais suscetível a doenças crônicas. Segundo o Relatório Vigitel 2014, do Ministério da Saúde, o percentual de pessoas acima do peso subiu de 43% para 52,5%, entre 2006 e 2014. A pesquisa também aponta que 56,5% dos homens e 49,1% das mulheres estão acima do peso.

E com a explosão do sobrepeso entre crianças, adolescentes e jovens, o negócio vai de mal a pior. Dados da Organização Mundial da Saúde (OMS) indicam que, em apenas sete anos, a obesidade entre os adolescentes aumentou mais de três vezes, saltando de 3,7% em 2004 para 12,6% em 2011. A matemática óbvia desse quadro é muito junkfood (alimento de má qualidade) multiplicado pelo tempo perdido com os gadgets (mídias móveis) e elevado ao sedentarismo.

 

PREVENIR É MELHOR QUE…

É nesse ponto que entram as atividades físicas. Além de fortalecer e alongar os músculos, entre outros benefícios físicos, “a prática regular de exercícios estimula as habilidades cognitivas, o autocontrole e até o desenvolvimento espiritual, além de prevenir as doenças crônicas. Estudos comprovam que jovens que praticam atividades físicas regulares são menos propensos ao uso de drogas. Também já foi demonstrado bioquimicamente que os exercícios geram prazer e um senso de conquista”, afirma Leonardo Martins, doutor em Educação Física pela Unicamp.

Nesse sentido, especialmente as aulas de Educação Física podem mudar a condição atual do corpo e ajudar a reescrever o futuro, estimulando as pessoas, desde a infância, a adquirir o hábito de praticar exercícios físicos e se manterem saudáveis. Segundo pesquisa doutoral da Unesp, realizada por Rômulo Araújo Fernandes, com 2.720 pessoas do interior paulista, exercícios praticados apenas na idade adulta não previnem os desequilíbrios de colesterol, que afetam 16% da população brasileira. A conclusão é que, quanto mais cedo começamos a fazer exercícios, temos mais saúde.

 

NEM SÓ DE BOLA

Se, por um lado a Educação Física é ótima para a saúde e para a formação de bons hábitos, por outro, a prática está bem longe do ideal. Para começar, a maioria dos alunos enxerga as aulas como o genérico “jogar bola” na quadra. Isso se deve a uma histórica crise de identidade. Somente a partir dos anos 1980 é que se passou a discutir o verdadeiro objetivo da disciplina.

Uma parte das escolas pratica esportes coletivos organizados, com regras, tudo bonitinho. Mas poucos alunos imaginam que outras atividades podem ser desenvolvidas, como exercícios físicos individuais, atletismo e ginástica artística. Ao todo, são 127 modalidades reconhecidas pelo Ministério do Esporte, mas as aulas costumam utilizar apenas quatro. Além de também fazer parte do currículo da disciplina, aulas diferenciadas poderiam incluir até os alunos que não se envolvem nos esportes coletivos, e com benefício extra de desenvolver novas habilidades. Nesse sentido, um dos valores que deve ser trabalhado é a cooperação, mais do que a competição.

CORRIDA CONTRA O TEMPO

Outro problema é o tempo de aula propriamente dito – que também é uma dificuldade nas demais disciplinas. Numa pesquisa realizada pela Universidade Federal de Pelotas, RS, constatou-se que as aulas de Educação Física duram em média apenas 35 minutos. Nesse curto período, a maioria dos alunos não chega nem perto de alcançar benefícios à saúde. E isso foi comprovado no estudo: acelerômetros fixados na cintura dos alunos indicaram que apenas 32,7% dos estudantes chegaram a praticar “atividades físicas moderadas ou vigorosas”, nível que traz benefício ao organismo. Os demais 72,3% dos alunos tiveram pouco ou nenhum proveito nas aulas.

SOMOS UM TODO

Antes de qualquer mudança prática, é preciso definir o objetivo não só da Educação Física, mas da educação como um todo. Não são apenas as disciplinas teóricas, como português e matemática, que fazem a diferença no seu futuro, mas o desenvolvimento equilibrado de todas suas capacidades (físicas, mentais, emocionais, sociais e espirituais). É isso que habilita você a ser uma pessoa mais completa.

“Eu gosto sempre de dizer que a Educação Física não é a educação do físico, mas do homem”, resume o professor Admilson Gonçalves de Almeida, mestre na área pela Unimep. Ele complementa que as aulas não servem apenas para cumprir um currículo escolar, mas para formar hábitos por toda vida, que trarão felicidade e longevidade aos alunos.

O desenvolvimento completo do ser humano tem sido o diferencial da filosofia de educação adventista, desde seus primórdios no século 19, nos Estados Unidos. Ellen G. White, uma de suas pioneiras, já naquela época combatia o mito de que o exercício físico não tem utilidade para a formação dos alunos. “Os que se dedicam a hábitos sedentários e literários deviam fazer exercícios físicos. A saúde deve ser suficiente incentivo para levá-los a unir o trabalho físico com o mental”, escreveu ela em Conselhos sobre Educação, página 178.

 

 

[Adaptação de Revista Conexão 2.0 – 3º trimestre/2012. Autoria: Diogo Cavalcanti. Ilustração: Vandir Dorta Jr.]
Diogo Cavalcanti
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